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24 maio 2026

Por que os ETFs de renda fixa cresceram tanto no Brasil

A ascensão dos ETFs de renda fixa no Brasil não se explica só pela Selic: regras fiscais e mudança na remuneração dos assessores impulsionaram o crescimento do setor

Por que os ETFs de renda fixa cresceram tanto no Brasil

O mercado brasileiro de ETFs vem registrando uma transformação significativa: os produtos de renda fixa alcançaram R$ 51 bilhões em AuM, um salto que é quase seis vezes o patrimônio registrado em dezembro de 2026. Esse avanço supera em ritmo o crescimento agregado dos ETFs no País, que dobrou no mesmo período. Apesar de juros elevados terem criado um cenário favorável, a história por trás desse crescimento é multifacetada, envolvendo tributação, mudanças na distribuição e a busca de alternativas para o caixa por parte de investidores institucionais.

Por que os ETFs de renda fixa atraem tantos recursos

Uma razão importante é operacional: muitos gestores e tesourarias corporativas têm recorrido aos ETFs para gerir o caixa com praticidade. O maior produto do segmento, o BLFT11 da Bradesco Asset, concentra cerca de R$ 10 bilhões em LFTs e foi concebido pensando em clientes institucionais que precisam de liquidez e simplicidade na execução diária. Além disso, os ETFs oferecem vantagens tributárias e de transparência que passaram a ser melhor comunicadas aos investidores à medida que o modelo fee-based ganhou tração entre assessores.

O modelo fee-based — no qual o assessor é remunerado diretamente pelo cliente em vez de receber comissões por venda de produtos — tem estimulado profissionais a explicarem benefícios como a ausência de come-cotas e de IOF nos primeiros 30 dias de aplicação, em comparação com fundos tradicionais. Essa mudança de incentivo ajudou a popularizar os ETFs entre investidores pessoa física e instituições que antes tinham menos contato com o formato.

O papel decisivo da tributação e do prazo

Nem toda a expansão se deve à Selic. Em 2026, a Secretaria do Tesouro Nacional esclareceu como deveriam ser classificadas as carteiras compostas predominantemente por LFTs: foram enquadradas como curto prazo e sujeitas a uma alíquota de 25% para IR, acima do teto de 22,5% aplicado a quem compra títulos públicos diretamente. Esse entendimento levou gestores a reestruturarem produtos e a lançar novos ETFs buscando eficiência fiscal.

Estratégias para reduzir a carga de imposto

Uma saída adotada por alguns ETFs foi alongar o prazo médio da carteira para acima de 720 dias — nesse caso, a alíquota de IR cai para 15%. Foi o que motivou mudanças em veículos como o LFTB11, que passou a alocar cerca de 8% em NTN-B 2060 para elevar o prazo médio para aproximadamente 760 dias. O ajuste tributário tornou esses ETFs mais atrativos para quem compara direto com a compra de títulos isolados.

Impacto para gestoras, investidores e produtos futuros

O movimento foi sentido em diversas gestoras: a Investo, especializada em ETFs, viu seu AuM saltar de R$ 1,8 bilhão em janeiro de 2026 para R$ 10 bilhões até a data da publicação. A XP lançou oito ETFs de renda fixa nos seis meses anteriores, com carteiras que incluem títulos pós-fixados, prefixados e atrelados à inflação — produtos que capturaram a atenção de clientes em busca de alternativas tributárias aos fundos exclusivos.

Apesar da rápida ascensão, nem todos os perfis saem ganhando automaticamente. A taxa de administração média dos ETFs de renda fixa está em torno de 0,25%, superior à de alguns fundos destinados à alta renda, o que diminui a vantagem para clientes com grandes patrimônios. Gestores de patrimônio apontam que, se a base de investidores continuar a crescer, as taxas podem eventualmente cair, possivelmente aproximando-se dos níveis observados em mercados mais maduros, onde certas ETFs chegam a cobrar 0,03%.

Oferta de crédito privado e incertezas regulatórias

Há também demanda por ETFs de crédito privado, mas o lançamento desses produtos depende de uma definição sobre a tributação — se serão tributados a 15% ou 25%. Anbima e o Tesouro discutem o enquadramento, e algumas gestoras preferem segurar produtos em pré-operação até que haja clareza regulatória. Esse impasse ilustra como decisões fiscais podem moldar rapidamente a estrutura e a velocidade de inovação no segmento.

Em suma, o avanço dos ETFs de renda fixa no Brasil resulta da combinação entre conveniência operacional, mudanças no sistema de remuneração dos assessores e ajustes tributários que gestores souberam aproveitar. Para investidores e instituições, o desafio agora é avaliar custo, tributação e adequação ao perfil antes de migrar posições tradicionais para ETFs.

Autor

Ilaria Mauri

Ilaria Mauri, bolognesa, decidiu enveredar pelo jornalismo desportivo depois de uma noite no Dall'Ara durante um jogo decisivo: hoje coordena as páginas de competições e comentários. Na redação privilegia reportagens em campo e guarda o bilhete desse jogo como prova da viragem.