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17 maio 2026

Adoção de IA na saúde brasileira cresce, mas concentra-se em tarefas operacionais

Pesquisa do Cetic.br revela expansão da IA em hospitais e serviços de apoio, com foco em processos administrativos, segurança digital e necessidade de regulação e capacitação

Adoção de IA na saúde brasileira cresce, mas concentra-se em tarefas operacionais

Os últimos levantamentos do Cetic.br, divulgados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostram que a adoção de inteligência artificial na saúde brasileira alcançou 18% dos estabelecimentos de atendimento em 2026, segundo dados apresentados em 12 de maio de 2026. A pesquisa, realizada com 3.270 gestores, aponta diferenças entre os setores: 11% no público e 25% no privado. Esses números indicam uma presença crescente da IA em rotinas administrativas e clínico-operacionais, ao mesmo tempo em que colocam em evidência as limitações estruturais e de governança que ainda impedem uma adoção mais ampla.

Panorama geral da adoção

Ao detalhar a difusão, o estudo revela que a presença da IA é mais intensa em estabelecimentos de maior porte: 31% nas unidades com mais de 50 leitos e 29% nos Serviços de Apoio Diagnóstico e Terapêutico (SADT). Entre as tecnologias empregadas, modelos de IA generativa aparecem em 76% dos locais que já adotaram a tecnologia, seguidos por mineração de texto (52%) e automação de processos (48%). Para 2026 houve mudança metodológica que ampliou o escopo para todos os estabelecimentos com computador, ampliando a representatividade da pesquisa, conforme explicou Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.

Principais aplicações e áreas de impacto

As utilizações relatadas concentram-se principalmente na organização de processos clínicos e administrativos (45%), melhoria da segurança digital (36%) e aumento da eficiência dos tratamentos (32%). Outras aplicações relevantes incluem apoio à logística (31%), gestão de recursos humanos e recrutamento (27%), auxílio ao diagnóstico (26%) e recomendações de dosagem de medicamentos (14%). Esses percentuais mostram que, por ora, grande parte do uso da IA atende a funções operacionais e de suporte, enquanto aplicações diretamente clínicas ainda evoluem de forma mais gradual.

Difusão por porte e tipo de serviço

A pesquisa também investigou o emprego de Big Data, que se mostra menos difundido: somente 9% dos estabelecimentos realizaram análises com apoio dessa tecnologia em 2026, com maior incidência no setor privado (11%) e em hospitais com mais de 50 leitos (30%). Em paralelo, os serviços online ao paciente avançaram: 39% oferecem visualização de resultados, 34% permitem agendamento de consultas e 32% agendamento de exames. As modalidades de telessaúde vêm crescendo — teleconsultoria (36%), teleconsulta (28%), telediagnóstico (27%) e telemonitoramento (20%) — refletindo maior digitalização das interações.

Barreiras à expansão e foco em governança

Apesar do progresso, gestores apontam obstáculos significativos. Em hospitais com mais de 50 leitos, os principais entraves são custos elevados (63%), falta de priorização institucional (56%) e limitações relacionadas a dados e capacitação (51%). Nos SADT, prevalecem falta de interesse (60%), ausência de prioridade (64%) e preocupações com privacidade (50%). Luciana Portilho, coordenadora de projetos do Cetic.br, destaca que o avanço da IA exige profissionais qualificados e o estabelecimento de marcos regulatórios e diretrizes para garantir uso ético e seguro em um setor que lida com informações sensíveis.

Segurança da informação e proteção de dados

A adoção de políticas formais de segurança está longe da universalização: 42% dos estabelecimentos afirmam ter uma política formal, com maior adesão no setor privado (54%) que no público (28%). Quase metade (47%) realizou treinamentos em segurança da informação, porém medidas estruturadas de conformidade com a LGPD são menos frequentes — campanhas de conscientização ocorrem em 46% dos locais, enquanto a designação de encarregado de dados ou planos de resposta a incidentes aparecem em cerca de 30% das unidades. Esses indicadores ressaltam a necessidade de investimentos em governança e capacitação.

Interoperabilidade e continuidade do cuidado

A digitalização avança com 92% dos estabelecimentos usando sistemas eletrônicos para registro de informações dos pacientes (prontuário eletrônico), mas a troca de dados entre serviços ainda é limitada: apenas 44% podem enviar ou receber encaminhamentos eletrônicos, sendo 64% no público e 28% no privado. Relatórios sobre assistência e resultados laboratoriais também têm capacidade reduzida de compartilhamento (41% e 37%, respectivamente), o que evidencia desafios de interoperabilidade que impactam a continuidade do cuidado.

Integração com a RNDS

Pela primeira vez a pesquisa avaliou a conexão com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS): 44% dos estabelecimentos estão integrados, com maior presença em unidades básicas de saúde (72%) e no setor público (64%). A integração à RNDS é vista como estratégica para facilitar o compartilhamento seguro de informações e melhorar a coordenação assistencial entre diferentes pontos de atenção.

Em resumo, o levantamento do Cetic.br e do NIC.br mostra um avanço significativo da tecnologia digital na saúde, mas também sublinha a necessidade de estratégias coordenadas: investimentos em conectividade, formação de profissionais, governança de dados e marcos regulatórios são essenciais para que a IA deixe de ser predominantemente operacional e passe a contribuir de forma mais robusta para diagnósticos, tratamentos e atenção integrada ao paciente. A pesquisa entrevistou gestores entre fevereiro e novembro de 2026, fornecendo um retrato abrangente das mudanças em curso.

Autor

Emanuele Negri

Emanuele Negri, ex-arquiteto de Turim, documentou a recuperação de um pátio na Barriera di Milano e optou pela comunicação editorial: na redação promove projetos de regeneração urbana e assina dossiês sobre materiais sustentáveis. Guarda um esboço original do primeiro projeto profissional.