A controlada compartilhada pela Shell e pela Cosan, a Raízen, protocolou um pedido de recuperação extrajudicial em 11/03/2026 para tentar reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. A notícia provocou uma correção brusca nos títulos relacionados ao agronegócio: investidores relataram uma venda em bloco de R$ 8 milhões de um CRA a aproximadamente 40% do valor de face, um sinal claro de que o mercado está testando até onde vai o desconto nos créditos da empresa.
Por trás do protocolo há duas frentes: a negociação direta com credores e a necessidade de preservar caixa para a safra. No curto prazo a medida suspende pagamentos e busca adesões — o acordo exige 50% mais um dos credores, enquanto relatos indicam adesão inicial entre 40% e 47%. A combinação entre o preço dos títulos no mercado secundário e a captação necessária para a próxima safra tornou a operação urgente.
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Por que a situação se agravou
A trajetória da Raízen reflete fatores operacionais e macroeconômicos acumulados. Do lado macro, a elevação do custo financeiro com a Selic alta comprim ou as margens; do lado operacional, perdas significativas na produção de cana — estimadas em torno de 30% em produtividade por efeitos climáticos — e investimentos de longo prazo, como o projeto de etanol de 2ª geração, consumiram caixa sem retorno imediato. Em conjunto, esses elementos levaram a resultados negativos e à necessidade de reorganizar passivos para garantir liquidez na próxima safra.
O que prevê o plano apresentado
O esboço da reestruturação inclui uma combinação de capitalização, conversão de dívida em participação e alongamento do perfil dos débitos. Está prevista uma injeção de cerca de R$ 4 bilhões — com R$ 3,5 bilhões anunciados pela Shell — e proposta de conversão de aproximadamente 40% da dívida em ações, além do alongamento do saldo remanescente. A viabilidade do plano, porém, depende de premissas macroeconômicas, como a trajetória descendente projetada da Selic, e da concordância de credores majoritários.
Premissas e fragilidades
O acordo nasceu com adesões parciais; se os percentuais exigidos não forem atingidos, a companhia pode buscar alternativas que afetem mais fortemente credores ou acionar a via judicial. Além disso, qualquer reversão nas expectativas sobre inflação e juros pressiona o custo financeiro residual do plano, reduzindo o espaço para conversão ou alongamento sem maiores perdas aos detentores de crédito.
Ativos anunciados para venda e impacto na liquidez
Entre as medidas operacionais, a Raízen colocou ativos à venda somando cerca de R$ 4,9 bilhões em valores brutos, com passivos associados de aproximadamente R$ 4,27 bilhões, resultando em um efeito líquido próximo de R$ 697 milhões. A composição inclui negócios de açúcar e etanol (~R$ 1,93 bilhão), ativos biológicos como canaviais (~R$ 373 milhões) e arrendamentos de terras de longo prazo (~R$ 1,5 bilhão). Também constam usinas solares (~R$ 1,4 bilhão) e recebíveis da comercializadora (~R$ 608 milhões).
Vendas já realizadas
A companhia já efetivou desinvestimentos de cerca de R$ 5 bilhões, incluindo a alienação de usinas e canaviais como as unidades de Leme, Rio Brilhante, Passatempo e os canaviais da Usina Santa Elisa. Essas operações foram passos práticos para gerar caixa imediato, mas a receita obtida ainda precisa compensar a pressão financeira geral sobre o balanço.
O mercado de CRAs e os sinais para investidores
Os movimentos nos CRAs — instrumentos lastreados em recebíveis do agronegócio — funcionam como termômetro: a venda a ~40% do face demonstra que o mercado precifica risco elevado de perda e alongamento extensivo. Para credores e investidores, isso indica que descontos profundos já são incorporados a alguns papéis, enquanto outros seguem mais resistentes dependendo de garantias, vencimentos e cláusulas contratuais.
O que observar daqui em diante
Os próximos passos cruciais incluem a evolução das adesões, a homologação formal do acordo (se ocorrer) e a execução das vendas de ativos anunciadas. A trajetória da Selic, o desempenho da próxima safra e a capacidade operacional de reduzir custos definirão se o ajuste será suficiente para estabilizar o crédito. Enquanto isso, o mercado continuará testando preços e a volatilidade nos títulos ligados à Raízen deve persistir até que haja clareza sobre o tamanho dos cortes e a confirmação das medidas de capitalização.
