A ANBIMA colocou em operação a fase de testes do projeto‑piloto de tokenização, escolhendo 20 das 39 propostas apresentadas para avaliar aplicações práticas em debêntures e fundos de investimento. As iniciativas inscritas vieram, individualmente ou em consórcios, de mais de 50 instituições, incluindo bancos, gestoras e empresas de tecnologia. O objetivo é observar, em condições controladas, como a tokenização se comporta ao longo de todo o ciclo de vida dos ativos — da estruturação à liquidação — e assim construir referências técnicas e operacionais úteis ao mercado.
Os ensaios acontecem em uma rede baseada em DLT criada para o projeto, sem circulação de dinheiro real e sem a presença de investidores finais. Essa configuração permite experimentar processos complexos como emissão, transferência, eventos corporativos e liquidação em um ambiente que reproduz a realidade do mercado, mas com segurança para testar hipóteses. A iniciativa busca gerar aprendizados sobre padronização de fluxos, modelos de governança e mecanismos para preservar as funções regulatórias no contexto de ativos tokenizados.
Index du contenu:
Como os testes serão conduzidos
Os participantes irão reproduzir etapas essenciais do mercado de capitais para entender o impacto da tokenização em operações rotineiras. Serão simuladas a estruturação de títulos, a emissão dos tokens, a transferência de titularidade, o tratamento de eventos e os processos de liquidação. Em alguns casos, os ativos serão criados como ativos nativamente digitais, enquanto em outros a tecnologia atuará como camada sobre instrumentos existentes. O foco é documentar ganhos de eficiência e os pontos de atrito operacionais que precisam ser resolvidos antes de qualquer adoção em escala.
Ambiente de testes e medidas de segurança
O piloto utiliza uma rede permissionada de DLT, com regras de participação definidas pelos próprios participantes do mercado. Não há movimentação de recursos reais — o que permite avaliar procedimentos sem risco financeiro — e investidores finais não tomam parte nas simulações. O formato facilita a identificação de requisitos de governança, controles de acesso, e procedimentos de auditoria, além de permitir que as equipes documentem incidentes operacionais e proponham melhorias para integrar a tokenização aos fluxos regulatórios existentes.
Quem participou e os casos de uso selecionados
Das 20 propostas aprovadas, 10 vão testar a operação conjunta de debêntures e fundos na mesma infraestrutura, 7 são focadas exclusivamente em debêntures nativamente digitais, e 3 visam automatizar processos de fundos por meio de contratos inteligentes. Entre os participantes estão grandes bancos, corretoras, plataformas de cripto e fornecedores de infraestrutura DLT, organizados em consórcios que reúnem conhecimento financeiro e tecnologia.
Listagem por casos de uso
Para facilitar a análise e o intercâmbio de resultados, o projeto agrupou as propostas por caso de uso:
- Debêntures e fundos (10 propostas): Consórcio Galápagos Capital e Liqi Digital Assets; Itaú Unibanco; Consórcio Braza Bank, Libertas Asset, Actual DTVM, Ripple Brasil e BBChain; Consórcio BBVA e VERT Capital; Consórcio TokenOne, Banrisul e NF Securitizadora; Consórcio Banco do Brasil, BB‑BI, Caixa, Inter Asset, Inter DTVM, Núclea, RealPrice, BBChain e GoLedger; Consórcio Banco do Nordeste, BBChain e Britech; Consórcio Oliveira Trust e Liqi Digital Assets; Consórcio AmFi, Travessia Securitizadora e Pier Gestora; Consórcio Banco BNP Paribas, BBChain e RTM.
- Debêntures (7 propostas): Consórcio Banco BV, Banco Inter e Kaleido; Consórcio BZLog, Finchain, Finventures e Dojo; BTG Pactual; Consórcio Mercado Bitcoin e Capitare; Consórcio Banco Santander e Evertec; B3; Consórcio Laqus e Bitshopp.
- Fundos de investimento (3 propostas): Consórcio Apex Group, MAPS S.A. e Inspire IP; Consórcio Banco Safra, Hamsa e IBM; Bradesco.
Próximos passos e compartilhamento de aprendizados
A fase de testes deverá se estender por cerca de seis meses, período no qual serão registradas as principais dificuldades e soluções encontradas. A proposta é consolidar um repositório de conhecimento técnico e operacional que fique disponível ao mercado para informar debates sobre padronização, governança e eventual adoção de ativos tokenizados. A liderança do projeto é da Rede ANBIMA de Inovação, que atua como ponte entre o mercado financeiro e a comunidade de tecnologia, promovendo trocas estruturadas entre os participantes e disseminando os resultados.
Ao final do piloto, os relatórios e aprendizados serão divulgados para ampliar a base de referências sobre tokenização no mercado de capitais brasileiro, ajudando a embasar decisões futuras sobre políticas, modelos operacionais e infraestrutura. O exercício pretende transformar hipóteses em evidências práticas, preparando o ecossistema para avaliar, com mais segurança, a aplicação dessa tecnologia em ambientes regulados.

