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Por que o próximo governo terá pouco espaço para cortar o déficit mesmo com mudança de comando

O debate sobre quem assumirá a Presidência após a eleição de 2026 ganhou tom técnico nas mesas de investimento: tanto as projeções eleitorais quanto os comentários de mercado colocam em pauta o tamanho do déficit fiscal e as possibilidades reais de correção.

Para operadores e gestores, entre eles o administrador Luis Stuhlberger, há consenso de que uma vitória eleitoral pode gerar euforia momentânea, mas que a solução demanda medidas estruturais complexas que dificilmente serão tomadas sem custo político.

Enquanto a retórica eleitoral promete mudanças rápidas, a realidade das contas públicas mostra números que limitam opções. O relatório do Banco Central indica que a dívida pública alcançou entre 78,7% e 79% do PIB em 2026, e o Governo Central fechou o ano com um déficit primário de R$ 61,7 bilhões. Para 2026, a projeção oficial apontou um déficit primário de R$ 59,8 bilhões, e gestores já alertam que esse quadro exige ajustes relevantes para não pressionar ainda mais a trajetória da dívida.

Dimensão do problema fiscal

Do ponto de vista técnico, o problema fiscal não é apenas o déficit anual, mas o descompasso entre regras e gastos correntes. Segundo vozes do mercado, como a de Stuhlberger, o país já estaria gastando o equivalente a R$ 500 bilhões acima do teto de gastos em 2026, o que cria uma folga orçamentária difícil de recompor. Para retornar ao limite constitucionalmente previsto, seria preciso um ajuste muito expressivo — estimativas citadas falam de algo entre 3,5% e 4% do PIB, número que especialistas consideram improvável de ser implementado em curto prazo; até um corte de 2% do PIB seria extremamente desafiador.

Responsabilidades e histórico

Na avaliação de mercado, a origem do estouro do teto tem múltiplas raízes: parte das distorções foi acumulada durante administrações anteriores, e os últimos anos contribuíram para agravar o quadro. Stuhlberger lembra que, em décadas de acompanhamento dos balanços públicos, foi raro ver um presidente encarando o ajuste com efetividade — ele aponta que apenas o governo de Michel Temer adotou medidas decisivas nesse sentido. Outros mandatos, ainda que tenham iniciado tentativas de correção, não mantiveram rumo até a consolidação.

Medidas recentes e o dilema do Orçamento

No campo prático, o governo atual optou por postergar parte do ajuste necessário. Em 24/03/2026, a Junta de Execução Orçamentária (JEO) aprovou um bloqueio modesto de R$ 1,6 bilhão no Orçamento de 2026, decisão que frustrou expectativas do mercado e de técnicos que aguardavam um contingenciamento maior para cobrir despesas adicionais, sobretudo aquelas ligadas ao INSS. A fila de requerimentos do Instituto ultrapassou os 3 milhões no início do ano, e a aceleração das concessões poderia custar até R$ 30 bilhões, segundo simulações preliminares; entre R$ 6 bilhões e R$ 10 bilhões desse montante já estão incorporados nas projeções oficiais.

Bloqueio, contingenciamento e reserva de prudência

Para entender as escolhas, é preciso distinguir instrumentos: o bloqueio é a contenção de despesas discricionárias quando há aumento nas obrigações, enquanto o contingenciamento responde a frustrações de arrecadação. O governo tem usado uma combinação de mecanismos, além de um faseamento — uma reserva de prudência hoje na casa de R$ 43 bilhões — para evitar cortes abruptos. Essa estratégia permite esticar decisões ao longo do ano, mas mantém o risco de pressões fiscais futuras se as receitas não crescerem conforme o esperado.

Receitas, riscos e perspectivas eleitorais

No lado das receitas, houve revisões otimistas e pessimistase simultâneas: a previsão do preço médio do barril de petróleo subiu de US$ 64,93 para US$ 73,09, gerando expectativa de arrecadação adicional de cerca de R$ 16,7 bilhões em royalties; por outro lado, receitas esperadas com medidas tributárias e sobre novos setores vieram menores do que projetado. Essa combinação amplia a incerteza sobre a necessidade de futuros bloqueios ou contingenciamentos e reforça a avaliação dos investidores de que a simples troca de comando no Palácio não garante correção automática do desajuste.

Em suma, o quadro que se desenha é de limitações institucionais e políticas: há espaço para ajustes, mas a magnitude das medidas necessárias e o custo político que acarretam explicam o ceticismo do mercado. A equação fiscal continuará sendo um dos principais fatores a orientar decisões de investimento e o debate público até — e depois — das eleições.

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