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28 maio 2026

Mudança inédita na alocação de family offices pressiona o dólar

Uma pesquisa global revela que uma fatia significativa de family offices pretende alterar suas carteiras, aumentando diversificação cambial, ouro e cripto, e reduzindo imobiliário em busca de maior liquidez

Em um ambiente marcado por tensões internacionais e inquietações sobre sustentabilidade fiscal, muitos family offices estão repensando suas estratégias de investimento. Uma pesquisa conduzida pelo UBS com 307 escritórios familiares em aproximadamente 30 países aponta que uma parcela expressiva pretende alterar a composição de suas carteiras nos próximos 12 meses. Essa movimentação não é apenas uma correção pontual: trata-se de uma revisão mais ampla das premissas que orientaram decisões nos anos recentes.

Os dados indicam que, diante de um cenário sem um substituto óbvio para o dólar, gestores buscam um conjunto de alternativas que inclui outras moedas, ouro e, em menor grau, criptoativos. Ao mesmo tempo, há uma tendência a reduzir posições em ativos menos líquidos para ganhar flexibilidade. Esse reposicionamento reflete a percepção de que modelos que funcionaram no passado podem não se repetir no futuro.

Escala da revisão e diferença regional

A pesquisa mostra que cerca de 60% dos entrevistados planejam ajustar suas alocações — percentual consideravelmente superior ao registrado nos anos anteriores. Essa intenção, no entanto, varia muito por região: o Oriente Médio apresenta os índices mais altos de mudança, enquanto os Estados Unidos demonstram maior resistência a alterar estratégias. Essa divergência sugere que a sensação de urgência é mais intensa fora dos mercados norte-americanos, onde muitos ainda mantêm confiança na estabilidade doméstica.

Percepção sobre o dólar

Entre os family offices pesquisados, com patrimônio médio relevante, quase metade se declara over-exposed ao dólar. Esse desconforto levou cerca de 29% a reduzir ou considerar reduzir a exposição a ativos denominados em dólar, enquanto outro grupo de aproximadamente 30% está ativamente ampliando a diversificação cambial. A busca por um “plano B” monetário explica em grande parte o interesse por cestas de moedas e por ativos fora do âmbito do greenback.

Quais ativos ganham e quais perdem espaço

As mudanças previstas são graduais: o aumento em ações de mercados emergentes é projetado para ser modesto, assim como a elevação da parcela destinada a ouro e infraestrutura. Por outro lado, o investimento em imóveis deve ser reduzido, motivado pelo cenário de juros elevados e pela necessidade de maior liquidez. Essas alterações refletem uma preferência por instrumentos que permitam ajustes mais rápidos e por proteção contra choques macroeconômicos.

O papel dos criptoativos

Apesar de ainda serem minoritários, os criptoativos aparecem na análise estratégica de uma fatia dos escritórios: aproximadamente 24% já alocam em cripto, com exposição média reduzida, enquanto quase metade considera as moedas digitais como parte da alocação estratégica. Isso demonstra uma transição do criptomercado de curiosidade especulativa para um componente deliberado na construção de portfólios, embora com participação limitada.

Características dos family offices latino-americanos

Os escritórios familiares da América Latina destacam-se por uma postura mais conservadora: alocam maior parcela em títulos de renda fixa e ativos líquidos e menor em ações e alternativas. Em média, o percentual aplicado em bonds na região é superior ao observado em outras zonas geográficas. Ao mesmo tempo, a distribuição geográfica das carteiras tende a privilegiar os Estados Unidos, tornando a América Latina uma das áreas mais “americanizadas” em termos de alocação global.

Internacionalização e preferência por mercados desenvolvidos

Houve também um movimento claro de internacionalização: muitos gestores latino-americanos avaliam ampliar exposição a moedas e mercados estrangeiros. Ainda que exista interesse em outros mercados emergentes, a preferência por ativos dos países desenvolvidos permanece dominante por enquanto. Esse comportamento reflete tanto a busca por liquidez e segurança quanto a necessidade de diluir risco concentrado.

Conclusão

O conjunto de evidências sugere que os family offices estão adotando uma abordagem mais cautelosa e diversificada diante de um cenário global incerto. A combinação de menor exposição a imóveis, maior ponderação em ouro, infraestrutura e um leve aumento em emergentes, além da inclusão ponderada de cripto e maior diversificação cambial, aponta para uma reconfiguração lenta, porém estrutural, das carteiras de alto patrimônio. Em suma, trata-se de uma busca por flexibilidade e por alternativas ao domínio exclusivo do dólar.

Autor

Niccolò Conforti

Niccolò Conforti acompanhou o lançamento de uma startup napolitana num encontro no Centro Direzionale, apoiando uma linha editorial pró‑inovação no setor fintech. Analista fintech, inclui um pormenor biográfico: mantém um registo das primeiras apresentações a que assistiu em Napoli.