Os investidores em renda fixa no Brasil vivenciaram uma semana atípica. Os juros reaisque representam o retorno acima da inflação, alcançaram o maior nível desde a crise financeira global de 2008. Esse movimento foi impulsionado por fatores geopolíticos e decisões de política monetária, causando impactos significativos no mercado.
Quem já estava posicionado em títulos de renda fixa viu o valor de seus investimentos recuar, enquanto aqueles que ficaram de fora começaram a questionar se ainda há oportunidades de entrada.
O impacto do IPCA e da geopolítica
A semana começou com um movimento inesperado. O IPCA de maio veio acima do esperado, mas as taxas do Tesouro IPCA+ caíram significativamente após um acordo entre os Estados Unidos e o Irãque derrubou os preços do petróleo. Para Ricardo TrevisanCEO da Gravus Capitalo dado de inflação não assustou o mercado, pois estava concentrado em itens vistos como choque de oferta.
A mecânica do título IPCA+ explica parte da reação, já que ele corrige o principal pela inflação. Uma alta do índice não exige uma taxa maior no mercado secundário, o que contribuiu para a queda inicial das taxas.
A Super Quarta e suas consequências
Na quarta-feira, duas decisões importantes impactaram o mercado. Kevin Warshpresidente do Federal Reservefez sua primeira coletiva após o Fed manter as taxas de juros americanas, mas elevar as projeções de inflação. O mercado interpretou o discurso como um sinal de juros altos por mais tempo nos EUA, o que afetou diretamente os ativos brasileiros.
No mesmo dia, o Copom cortou a Selic para 14,25% ao ano, em uma decisão unânime e esperada. No entanto, o tom do comunicado gerou ruído no mercado, sendo lido como confuso. Para Luciano Sobraleconomista-chefe da Neo Investimentoso Banco Central pareceu mudar as regras do jogo para justificar o corte.
O conjunto de fatores levou o Tesouro a suspender as negociações no dia seguinte. Na reabertura, os títulos prefixados saltaram mais de 25 pontos-base, com o Prefixado 2029 indo de 14,47% para 14,73%. O IPCA+ 2032 chegou a tocar 8,51% ao ano no intradia, o pico da semana.
O significado do recorde
Quando o mercado exige um IPCA+ 8,47% para emprestar ao governo por seis anos, sinaliza que considera o risco alto o suficiente para cobrar esse prêmio. Para as empresas que captam no crédito privado, o problema é mais concreto, pois a Selic acima de 14% leva o custo de algumas dívidas corporativas para perto de 20% ao ano.
Para Sami Karlikhead de crédito privado e estruturado da Tivio Capitalé preciso ter uma margem muito boa para ganhar dinheiro pagando uma dívida que chega a quase 20% ao ano. A Kapitaloque saiu dos prefixados e concentrou posição em juros reais, considera as taxas dos papéis de inflação “elevadíssimas” e com espaço para cair.
Para Bernardo FeijóCOO da gestora, essas taxas refletem o descompasso das contas públicas. “Há uma inconsistência entre política fiscal e monetária que justifica”, afirmou.
A Vista Capital foi mais longe, afirmando que os juros reais vão cair “por bem ou por mal”, seja por ajuste fiscal ortodoxo, seja por uma dominância fiscal que corroa a âncora de preços. Para a casa, o CDI virou “o ativo mais arriscado do Brasil”. Como proteção, montou posição em ações de shopping centers, que têm dívida em CDI e receita corrigida pelo IGP-M.
A Legacy Capital trouxe um diagnóstico mais sombrio. “Não dá para pular de cabeça em nada, a gente está muito dependente do externo, a cor local está horrorosa”, disse Gustavo Pessoaresponsável pela mesa de renda fixa da gestora, que mantém 80% do risco no exterior. Pessoa chegou a afirmar que, se o governo decidir discutir a meta de inflação, “a saída é Guarulhos”.
Estratégias para o momento atual
Para especialistas ouvidos pelo InfoMoney, o momento não é de ignorar os títulos atrelados à inflação. “Jamais posso deixar de lado um IPCA+8%”, afirmou Victor Furtadohead de alocação da W1 Capitalque lembra que, em 93% das vezes em que o IMA-B 5 superou IPCA+ 6%, o retorno em 12 meses ficou acima de 100% do CDI para quem comprou naquele momento.
A preferência majoritária recai sobre os vencimentos intermediários. Trevisanda Gravusrecomenda prazos entre 2031 e 2035, e a XP prefere duration de até seis anos. Nos prefixados, a recomendação dominante é de cautela, já que a curva precifica possíveis altas da Selic e travar uma taxa hoje carrega risco caso o BC precise apertar mais.
Para quem já está posicionado, o conselho é de paciência, sem entrar já pensando em sair antes do vencimento, e mirar em sua capacidade de proteger o capital da inflação e de multiplicar a aplicação ao longo do tempo. “Como não temos nenhum cenário positivo para a NTN-B, devemos continuar com IPCA+8% até o final de 2026, até termos maior clareza nas eleições”, projetou Ângelo Belitardogestor da Hike Capital.



