O primeiro semestre de 2026 trouxe um cenário inédito para os investimentos estaduais no Brasil. Com eleições à vista, os governadores aceleraram os gastos em infraestrutura e serviços públicos, alcançando números nunca antes vistos. Este movimento estratégico não só reflete a busca por votos, mas também a recuperação econômica pós-pandemia e a melhoria na arrecadação tributária.
Os dados revelam um aumento significativo nos investimentos, com destaque para os estados que mais se beneficiaram desse momento político e econômico. A seguir, exploramos os principais números e as estratégias por trás desse crescimento.
Investimentos estaduais atingem patamar histórico
No primeiro semestre de 2026, os investimentos conjuntos dos estados e do Distrito Federal somaram R$ 42,9 bilhões, um aumento de 40,6% em termos reais em comparação com o mesmo período de 2025. Esse valor supera em 13,9% o registrado em 2022, ano em que os atuais governadores foram eleitos e que, até então, detinha o recorde histórico de investimentos.
Quando se consideram as inversões financeiras, muitas vezes classificadas como investimentos pelos estados, o total chega a R$ 59,6 bilhões, um aumento de 55,5% em relação a 2025 e 43,3% acima de 2022. Esse crescimento foi generalizado, com 22 dos 26 estados apresentando aumento real nos investimentos no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Estados que mais investiram
Os estados que apresentaram os maiores crescimentos em termos percentuais foram Rio Grande do Norte, Tocantins, Paraná, Minas Gerais, Sergipe, Pernambuco, Ceará, São Paulo, Alagoas e Santa Catarina. Em valores absolutos, São Paulo e Minas Gerais lideram, cada um com R$ 4,2 bilhões investidos, seguidos pelo Paraná, com R$ 3,9 bilhões.
No que diz respeito às inversões financeiras, São Paulo se destaca com R$ 16,7 bilhões no total agregado de estados e Distrito Federal. Sozinho, São Paulo respondeu por R$ 10,9 bilhões, dos quais R$ 6,6 bilhões foram aportes em Parcerias Público-Privadas (PPPs) principalmente em infraestrutura de transportes, como metrô, Rodoanel e túnel Santos-Guarujá. Além disso, cerca de R$ 1 bilhão foi aplicado em habitação, com R$ 700 milhões destinados a fundos classificados como investimentos até 2025.
Estratégias e desafios por trás dos investimentos
Para Samuel Kinoshita, secretário de Fazenda de São Paulo, o valor alcançado em 2026 é resultado de um processo contínuo de aumento de investimentos. Alberto Borges, economista e sócio da Aequus Consultoria, acredita que 2026 deve se tornar o novo pico histórico dos investimentos estaduais, motivado pelas eleições e propiciado por superávits acumulados em períodos anteriores, além de operações de crédito.
Luiz Paulo Budal, secretário em exercício da Fazenda do Paraná, destaca que 2026 é um ano eleitoral, tradicionalmente marcado por investimentos significativos. O Paraná, por exemplo, vem mantendo uma política expansionista desde 2023, ampliando o patamar de investimentos e entregando números recordes em várias áreas, como urbanismo, agricultura, transportes, educação, saúde e segurança pública.
O governo paranaense deve atingir um pico histórico de investimentos em 2026, com despesas já liquidadas entre R$ 8 bilhões e R$ 8,5 bilhões, bem acima dos R$ 5,9 bilhões liquidados em 2025. Entre os riscos, estão as questões climáticas, que podem atrasar as obras.
Fatores que impulsionaram os investimentos
O recorde de investimentos em 2022 foi impulsionado por transferências extraordinárias da União para combater os efeitos da pandemia, que elevaram as receitas dos estados em 2020. Nos anos seguintes, a arrecadação estadual foi favorecida pelo bom desempenho do ICMS que subiu 21,8% de janeiro a junho de 2021 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Após uma queda de 7,1% em 2020, a receita de ICMS se recuperou com a retomada da atividade econômica pós-pandemia e o impacto de preços pressionados.
A combinação desses fatores, junto com a contenção de despesas de pessoal imposta até o fim de 2021, permitiu aos governadores conquistar classificações mais altas de Capag (Capacidade de Pagamento), uma espécie de nota de crédito concedida pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Essa melhora abriu aos estados uma porta para o mercado de crédito, favorecendo o aumento dos investimentos.
Segundo dados da STN, em 2020, dez dos 26 estados e o Distrito Federal possuíam Capag A ou B, que possibilita crédito com aval federal. Em 2025, o número de entes com essas notas subiu para 21. As receitas com operações de crédito somaram R$ 26,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, com alta de 52,4% ante igual período de 2025, que já foi uma base relativamente alta de comparação.
Apesar dos números positivos, há um alerta: a conta das operações de crédito vai chegar lá na frente, após o período de carência. Além disso, a desaceleração da atividade econômica não impediu que a receita corrente no conjunto dos estados crescesse 3,6% reais este ano ante o mesmo período do ano anterior.



