Com três décadas de envolvimento ativo no ecossistema artístico nacional, Ricardo Sardenberg tem sido ponte entre instituições, galerias e o público. Sua história se entrelaça com marcos como a Pinacoteca de São Paulo, o Inhotim e a Art Basel, e hoje ele preside a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABACT). Em entrevistas, descreve sua trajetória como “já trabalhei em todas as áreas do sistema de arte – só não fui artista” enfatizando a amplitude de sua experiência.
Trajetória profissional: de Manhattan à Pinacoteca
Formado em fotografia e história da arte pela NYU Sardenberg iniciou a carreira na galeria Zabriskie em Manhattan, onde evoluiu de estagiário a diretor. Pouco depois, assumiu a direção da Camargo Vilaça ao lado de Karla Camargo, logo após o falecimento de Marcantonio Vilaça. Em junho de 2001, colaborou com Bernardo Paz na concepção que viria a ser o Inhotim. Paralelamente, co-fundou a editora Cobogó e representou a Art Basel no país durante quinze anos, consolidando sua presença nos principais circuitos internacionais.
Visão sobre colecionismo e o papel do comprador
Sardenberg faz uma separação clara entre comprador e colecionador. Ele costuma dizer: “você não é colecionador, você é um comprador” acrescentando que a prova de verdadeiro colecionismo vai além da simples aquisição. Inspirado em Walter Benjamin ele compara a prática a quem compra um livro: o leitor adquire para ler, enquanto o colecionador compra para possuí-lo, muitas vezes sem jamais consultar todas as obras. Segundo ele, “o colecionador tem que ter” e o ato de adquirir arte para uso pessoal – como encher a parede de um apartamento – caracteriza o comprador. Essa distinção norteia sua crítica à lógica de investimento puramente financeiro, alertando que “a chance de errar é muito grande” quando se busca retorno rápido.
Transformações recentes e perspectivas para o mercado
A pandemia desencadeou uma reconfiguração acelerada do mercado de arte. Surgiram art advisors influenciadores e grupos que organizam visitas e workshops, criando uma nova rede ainda em teste. Sardenberg admite não saber ao certo como o futuro se desenrolará, mas afirma que “está mudando e vai mudar”. Dentro desse cenário, ele destaca a importância de frequentar galerias, feiras e exposições individuais para desenvolver um olhar crítico. A proposta da ABACT de uma Art Week visa justamente estimular a circulação entre galerias, museus e instituições, reforçando a ideia de que a experiência direta é essencial para reconhecer tanto artistas quanto a programação de suas galerias.
Desafios locais e a busca por novas iniciativas
Desde o advento do Inhotim, Sardenberg nutre a esperança de que grandes projetos surjam fora do eixo Rio-São Paulo. Ele visualiza iniciativas de grande escala no Centro-Oeste, onde há terra e espaço abundantes, mas reconhece que ainda não se materializaram. Em São Paulo, tem orgulho de contribuir para a expansão do circuito artístico em Higienópolis onde residências, espaços de coleção privada e editoras criam um ambiente “cool” similar ao das capitais europeias, embora ainda subvalorizado localmente. A resistência do público em percorrer novos percursos – “as pessoas ficam presas nos seus pequenos currais” – evidencia a necessidade de projetos como a Art Week para ampliar o alcance cultural.
Nos últimos cinco anos, ao assumir sua própria galeria, Sardenberg desfruta da liberdade de montar programas que refletem sua assinatura pessoal. Ele ressalta que, ao contrário de suas experiências anteriores em que respondia a sócios, agora os acertos e erros são exclusivamente seus: “quando acerto, posso bater no peito; quando erro, não tenho quem culpar”. Apesar dos desafios financeiros – “Quando chegam os boletos, nem tanto” – ele afirma que o prazer de experimentar e dialogar com o arte contemporânea continua sendo a principal motivação.



