A Organização Mundial do Comércio (OMC) enfrenta uma pressão financeira crescente e anunciou planos para reduzir despesas em cerca de 10%. Segundo documentos internos datados de 12 de março e 18 de fevereiro e examinados pela Reuters, a administração está propondo um pacote de medidas que combina cortes de cargos, um congelamento de contratações e ajustes operacionais destinados a preservar o funcionamento da entidade. A informação dá conta de que a secretaria justificou essas ações diante do aumento do número de participantes que não têm honrado suas contribuições em dia.
O documento confidencial aponta que Washington, tradicionalmente o maior financiador da organização sediada em Genebra, figura entre os dez membros classificados na Categoria 1, definida no relatório como não ter pago suas contribuições por pelo menos um ano, mas por menos de dois anos. Essa situação amplia o vazio de caixa e cria incerteza sobre quando — ou mesmo se — os fundos pendentes serão regularizados. Em março, o representante comercial Jamieson Greer afirmou que a OMC teria um papel mais limitado na política comercial global, e que os EUA buscariam soluções bilaterais, regionais ou unilaterais quando necessário.
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Contexto e antecedentes
A organização, criada em 1995 para supervisionar regras do comércio internacional, já vinha fragilizada por tensões anteriores. O secretariado recorda que medidas protecionistas amplas adotadas durante o governo do presidente Donald Trump e a sistemática obstrução de nomeações para o principal tribunal de apelação desde 2019 contribuíram para uma crise de confiança e para um período prolongado de paralisação institucional que se arrasta há mais de seis anos. Esses eventos limitaram a capacidade da OMC de responder plenamente a disputas e reduziram receitas em momentos críticos.
Medidas propostas pelo secretariado
Entre as ações recomendadas nas notas internas está a eliminação do equivalente a 39 cargos tempo integral, um movimento que mistura cortes permanentes e reduções de pessoal de curto prazo. O plano inclui também o congelamento do recrutamento de pessoal com contratos de prazo fixo, maior utilização de estagiários de custo reduzido e iniciativas para cortar despesas de infraestrutura, como redução do consumo de eletricidade. Esses passos, segundo o relatório do Comitê de Orçamento, Finanças e Administração, visam ajustar o orçamento e ganhar fôlego até que a situação de pagamentos dos membros se normalize.
Cortes de pessoal e eficiência
O relatório aponta que os cortes pretendidos serão acompanhados de esforços para preservar funções essenciais, realocar responsabilidades e buscar sinergias entre departamentos. A secretaria propõe que a reestruturação minimize impactos operacionais e mantenha serviços chave, como a administração de disputas e apoio técnico. Ao mesmo tempo, o documento defende que a adoção de estagiários e contratos mais curtos sirva como uma solução temporária para preservar expertise enquanto os custos fixos são reduzidos.
Outras economias previstas
Além do pessoal, o pacote de austeridade prevê medidas de poupança administrativa: otimização de contratos com fornecedores, revisão de gastos com viagens e eventos e cortes em despesas gerais como eletricidade e manutenção. Segundo um relatório confidencial datado de 2 de março, a secretaria estabeleceu a meta de uma redução de gastos de 10% para o ano de 2026, como resposta direta ao agravamento do cenário financeiro.
Impactos e incertezas
Apesar das propostas, persiste a dúvida sobre a duração e a profundidade da crise. O documento revela que a OMC já acumulava seu maior problema de atrasos em uma década, com 20 membros sujeitos a medidas administrativas a partir do final de 2026. Para além do aperto orçamentário, existe o risco reputacional: cortes largos podem prejudicar a capacidade da organização de cumprir sua missão de mediar disputas e fornecer auxílio técnico a países em desenvolvimento.
Perspectivas institucionais
Especialistas ouvidos no material interno destacam que a estabilidade financeira da entidade depende tanto da regularização dos pagamentos em atraso quanto do retorno de confiança política entre os membros. Enquanto isso não ocorrer, a OMC tende a operar com prioridades mais restritas e com maior foco em serviços essenciais. As medidas anunciadas são, na visão da secretaria, um mal necessário para assegurar a continuidade mínima das operações até que se restabeleça um fluxo de contribuições mais previsível.
