Investir em crédito privado durante fases turbulentas do mercado pode parecer contraintuitivo, mas dados compilados pela gestora JGP apontam que essa atitude costuma ser recompensada. A gestora reuniu as debêntures mais líquidas em seu índice proprietário, o IDEX, e avaliou o desempenho desde 2017. O resultado mostra diferenças claras conforme o ponto do ciclo: quando os spreads estão comprimidos, o retorno tende a ficar próximo ou abaixo do CDI; quando os spreads se abrem, os ganhos podem ser significativamente maiores.
No total da amostra considerada, a JGP calculou um spread médio das emissões equivalente a 1,57% acima do CDI. Em termos de retorno agregado, as debêntures monitoradas pelo IDEX renderam, em média, CDI + 1,04% desde 2017, já incorporando efeitos de reestruturações e calotes. Esses números sugerem que a classe não transformou investidores em milionários, mas apresentou prêmio real consistente quando analisada ao longo do ciclo.
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O que os números dizem sobre o timing
A leitura por faixas do estudo da JGP revela nuances importantes. Em períodos de euforia, quando os spreads caíram ao quartil mais baixo (abaixo de 1,04%), o retorno das debêntures foi levemente inferior ao CDI. Por outro lado, quando o mercado viveu estresse — por exemplo após os defaults de empresas relevantes — os spreads superaram 1,82% e o retorno médio alcançou CDI + 4,37%. Essa relação evidencia que o ponto do ciclo tem peso decisivo no resultado final e que maior prêmio por risco tende a compensar investidores pacientes.
Metodologia e termos
Para fins do estudo, a JGP trabalhou com as debêntures mais líquidas e agrupou os papéis no IDEX, seu índice proprietário. Aqui vale destaque para conceitos técnicos: o spread indica a diferença entre o rendimento do título e a referência (CDI), enquanto a marcação a mercado reflete a avaliação diária dos ativos segundo preços vigentes. Esses dois elementos — spread e marcação a mercado — explicam boa parte das variações de retorno no curto prazo.
O cenário recente e o comportamento dos investidores
No momento atual, a média dos spreads no mercado está em torno de 1,9%, influenciada por eventos como o default da Ambipar e recuperações extrajudiciais envolvendo Raízen e Pão de Açúcar. Apesar da abertura das margens, os investidores têm feito o caminho inverso: fundos com mais de 50% em crédito registraram resgates líquidos de R$ 42 bilhões entre fevereiro e 10 de abril. Um comportamento parecido ocorreu em 2026, quando, entre janeiro e maio, saques somaram R$ 51 bilhões após os episódios envolvendo Americanas e Light.
Impacto nos retornos recentes
O efeito combinado dos resgates e da marcação a mercado tem sido percebido nas rentabilidades: neste ano, a carteira acompanhada pelo IDEX acumulou um retorno de 2,60% abaixo do CDI. Segundo a JGP, apenas 0,4 ponto percentual desse desempenho negativo decorre de problemas de crédito efetivos; o restante se deve à pressão de liquidez que ampliou os spreads e reavaliou preços. Em 2026 o choque foi mais intenso: os eventos corporativos reduziram 3,7 pontos percentuais da rentabilidade média do segmento, que naquele ano rendeu 10,2% ante um CDI de 13%.
Como posicionar uma carteira diante desse cenário
Para gestores e investidores pessoa física, a lição prática é encarar o crédito privado como um componente de portfólio, não como uma promessa de enriquecimento rápido. Alexandre Muller, CIO da JGP Crédito, resume a abordagem: o momento do ciclo importa e, embora existam riscos, entrar quando os spreads estão amplos costuma ser mais compensador. Em outras palavras, oportunidades surgem quando o mercado precifica medo — desde que o investidor faça uma seleção criteriosa de emissores e monitore liquidez e covenants.
Riscos e oportunidades
Os principais riscos a avaliar são o default do emissor, o risco de liquidez dos papéis e a sensibilidade à marcação a mercado em cenários de saques. Por outro lado, spreads elevados oferecem prêmio adicional que, no horizonte certo e com diversificação, pode resultar em retorno real atraente. A recomendação é balancear exposição, manter disciplina de crédito e aproveitar pontos de entrada quando a relação risco-retorno estiver favorável.
Resumindo, a análise da JGP reforça que manter sangue frio em momentos difíceis do mercado e olhar para o crédito privado como parte de uma alocação diversificada pode resultar em ganhos superiores ao CDI, especialmente quando os spreads estão abertos e o investidor consegue assumir riscos com controle.
