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18 maio 2026

Como o Estado e o BNDES podem proteger a economia do choque do petróleo

Aloizio Mercadante argumenta que o papel do Estado é proteger produção, emprego e desenvolvimento diante do aumento dos preços do petróleo, além de ampliar pesquisas na Margem Equatorial

Como o Estado e o BNDES podem proteger a economia do choque do petróleo

Em um debate recente, Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, afirmou que cabe ao Estado atuar como amortecedor diante do que descreveu como um choque do petróleo de alcance internacional. Segundo ele, diversas nações já adotaram medidas para reduzir o fardo dos preços elevados dos combustíveis sobre a população e a atividade econômica, e o Brasil não pode ser diferente. Mercadante ressaltou que proteger a produção, o emprego e o desenvolvimento exige políticas públicas coordenadas, instrumentos financeiros e decisões estratégicas por parte de empresas estatais e instituições de fomento.

O executivo também colocou ênfase no papel do setor energético nacional para enfrentar a instabilidade externa. Para Mercadante, o país dispõe de fatores que aumentam sua resiliência — entre eles, o pré-sal, a cadeia do etanol e a própria estrutura da Petrobras — e isso cria margem para medidas de proteção. Ao mesmo tempo, ele observou a necessidade de aprimorar a capacidade de refino interna para reduzir vulnerabilidades causadas por uma dependência excessiva de importações de combustíveis refinados.

O papel do Estado e da Petrobras

Mercadante defendeu que, embora a Petrobras deva obedecer às regras de mercado e garantir remuneração a investidores, a companhia também tem responsabilidades estratégicas em momentos de crise. O presidente do BNDES apresentou a ideia de que o Estado deve mediar conflitos e oferecer garantias quando necessário, para que a indústria mantenha níveis adequados de oferta e emprego. Nesse cenário, a estatal seria chamada a contribuir com políticas que protejam o abastecimento doméstico e amenizem variações abruptas de preço, sem perder de vista princípios como transparência e governança corporativa.

Desafios do modelo de refino e vantagens estruturais

Um ponto crítico levantado por Mercadante foi o atual modelo de refino no Brasil, que, segundo ele, reduz a capacidade de resposta a choques externos quando o país exporta óleo bruto e precisa importar derivados. Esse arranjo diminui margens de manobra política e econômica para controlar volatilidade de preços locais. Por outro lado, o presidente do banco destacou que a existência de grandes reservas em águas profundas e a produção de biocombustíveis conferem ao Brasil uma situação relativa de vantagem: em termos líquidos, parte dos efeitos do aumento internacional do petróleo pode ser compensada pelos ganhos de produção e exportação associados ao pré-sal e ao etanol.

Margem Equatorial: potencial e pesquisas

Ao tratar da Margem Equatorial, Mercadante pontuou que os levantamentos geológicos e morfológicos da plataforma continental apontam para um potencial comparável ao do pré-sal, ainda que a confirmação exija perfurações. Ele frisou que só se obtém uma reserva comprovada quando a broca encontra hidrocarbonetos, mas que os estudos preliminares são promissores. O BNDES tem apoiado financeiramente o mapeamento e a pesquisa, com objetivo de subsidiar decisões de investimento e garantir que qualquer avanço ocorra dentro de padrões técnicos robustos e planejados.

Pesquisa, tecnologia e parceria com a Marinha

Segundo Mercadante, os esforços de levantamento são realizados com embarcações e equipamentos de alta capacidade tecnológica, e há iniciativas conjuntas com a Marinha do Brasil para reduzir riscos ambientais e operacionais. O banco financia programas como o Planejamento Espacial Marinho (PEM), que reúne dados sobre a plataforma continental para orientar exploração e conservação. Essas iniciativas visam equilibrar aproveitamento econômico e proteção de ecossistemas marinhos, combatendo desinformação com base em argumentos técnicos.

Navios de pesquisa e salvaguardas ambientais

O presidente do banco destacou investimentos em navios e tecnologia para medir tanto a geologia quanto a biologia marinha, citando embarcações equipadas para coletar dados essenciais à tomada de decisão. A ênfase de Mercadante foi na combinação entre capacidade técnica e mecanismos de prevenção e contenção — ferramentas que, em sua visão, tornam plausível a expansão da atividade sem repetir medos antigos sobre danos massivos ao turismo ou ao litoral. Ele lembrou que o desenvolvimento do pré-sal foi marcado por debates semelhantes, cujos piores cenários não se confirmaram graças à evolução tecnológica e à regulação.

Conclusões e implicações

Em síntese, a proposta defendida por Mercadante combina duas frentes: medidas públicas para amortecer efeitos imediatos do aumento do preço do petróleo e investimentos de longo prazo em pesquisa e infraestrutura para reduzir a vulnerabilidade externa. O BNDES, segundo o executivo, tem papel ativo como financiador de estudos e projetos que aproximem exploração, preservação e desenvolvimento. Para ele, uma estratégia integrada entre Estado, empresas e ciência é condição para proteger a economia e aproveitar oportunidades energéticas emergentes.

Autor

Emanuele Tassinari

Emanuele Tassinari, restaurador de Turim, transformou a recuperação de uma porta setecentista num estudo de caso publicado: na redação coordena as colunas sobre restauro e técnicas tradicionais. Mantém um diário técnico com notas sobre acabamentos históricos que usa como referência em cada reportagem.