As investigações da chamada Operação Vérnix sofreram uma nova etapa de avanço quando a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo formalizaram o indiciamento de sete pessoas por suposta lavagem de dinheiro com utilização de criptomoedas e por associação criminosa. Em paralelo, foram solicitados aos magistrados do caso efeitos mais amplos sobre o patrimônio dos investigados, incluindo o aumento do bloqueio de bens.
Entre as medidas pedidas pela investigação estão a apreensão de veículos e a custódia judicial de joias de alto valor. As ações marcam o esforço das autoridades em desmontar a estrutura financeira que teria servido para dar aparência legal a recursos suspeitos.
O que a investigação apurou
Os peritos responsáveis pela apuração apontaram operações realizadas no ambiente digital com criptoativos como meio de ocultar a origem dos valores. Na prática, os investigadores encontraram movimentações planejadas para dispersar fundos no ecossistema virtual, tornando mais difícil identificar a trilha do dinheiro por parte dos órgãos de controle.
Empresas de fachada e uso de imagem
Durante a análise dos materiais apreendidos foi identificada a reestruturação de sociedades de fachada. Em um dos pontos centrais do inquérito aparece a movimentação de dezenas de registros de pessoas jurídicas vinculadas a um único endereço, um artifício clássico para simular atividade empresarial. Segundo as apurações, a fama de uma influenciadora foi utilizada como elemento para conferir aparência de legitimidade a repasses.
Valores, bens e ordens judiciais
A investigação relaciona movimentações sem justificativa legal que chegam à ordem de R$ 327 milhões. Apesar desse montante estimado nas apurações, as autoridades ainda não divulgaram detalhes sobre quanto desse total foi efetivamente convertido em criptoativos e de que forma as transações ocorreram no mercado digital.
Sequestros e bloqueios
O Tribunal de Justiça determinou o sequestro de 17 automóveis cujo valor somado ultrapassa R$ 8 milhões. Além disso, quatro imóveis de alto padrão vinculados a integrantes do grupo foram alvo de ordem judicial para constrição. Essas medidas buscam garantir que o patrimônio permaneça à disposição da investigação e evitar nova dispersão dos recursos.
Pessoas envolvidas e alcance internacional
O trabalho do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) destaca a presença de uma influenciadora digital entre os principais alvos, classificada pelos investigadores como peça de ligação entre o núcleo econômico e os líderes já encarcerados. A apuração investiga se essa pessoa atuou para lavar recursos de um grupo chefiado pelos irmãos conhecidos como Marco (Marcola) e Alejandro, que cumprem pena em estabelecimento prisional de segurança máxima na capital federal.
Há indicações de que parentes próximos — entre eles sobrinhos dos líderes — atuaram em transmissões financeiras, inclusive com movimentações em jurisdições estrangeiras. Em reação às tentativas de fuga, tribunais brasileiros acionaram a Interpol para localizar três investigados que teriam buscado refúgio em países como Itália, Espanha e Bolívia. A Polícia Federal passou a coordenar as buscas internacionais por meio de difusões vermelhas.
Como tudo começou
Os primeiros sinais que desencadearam a apuração remontam a interceptações pouco convencionais: recados em papel coletados em 2019 por agentes de um presídio paulista apontaram ordens e orientações que chamaram a atenção para uma logística organizada. A partir daí, a investigação mapeou rotas de ocultação de recursos e detectou o uso de uma transportadora do interior de São Paulo como frente para justificar entradas de caixa.
Além desses elementos, o acesso ao celular de um detido trouxe conversas que conectam a criadora de conteúdo à rede, com registros que demonstram proximidade e a circulação de transações fora dos padrões esperados. Em entrevistas coletivas, dirigentes do Ministério Público enfatizaram a complexidade e sofisticação da estrutura usada para lavagem e ressaltaram o esforço em bloquear o recrutamento de jovens para atividades criminosas.
Próximos passos da investigação
As autoridades solicitaram o compartilhamento de dados para aprofundar apurações relacionadas a eventuais crimes tributários e ampliar o cruzamento de evidências. O processo segue em curso, com diligências internas e internacionais destinadas a desarticular a frente econômica do grupo, apreender bens e rastrear o fluxo de ativos, inclusive os digitais representados por criptomoedas.
Enquanto o inquérito avança, medidas cautelares sobre bens e pedidos de cooperação internacional permanecem como ferramentas centrais para restringir a atuação da organização e preservar recursos até o esclarecimento definitivo dos fatos.