A Polícia Federal marcou para a tarde desta quarta-feira a oitiva, por videoconferência, de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e de seu pai, Henrique Vorcaro. Ambos se encontram presos – Daniel no 19º Batalhão da Polícia Militar, conhecido como “Papudinha”, em Brasília, e Henrique em unidade de Minas Gerais – e foram intimados a depor no inquérito que apura a atuação de duas organizações, denominadas “A Turma” e “Os Meninos”.
Grupos de vigilância e crime cibernético ligados a Vorcaro
Segundo as investigações, A Turma funcionava como uma milícia privada recrutada por Daniel Vorcaro para executar vigilância física, coleta de informações confidenciais e intimidação de adversários. O núcleo Os Meninos operava como braço tecnológico, especializado em invasões de sistemas, monitoramento telefônico ilegal e ataques cibernéticos. Mensagens apreendidas apontam que os hackers contratados recebiam cerca de R$ 75 mil mensais por esses serviços. O pai de Daniel, Henrique, seria o responsável financeiro de A Turma coordenada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, que morreu pouco tempo depois de tentativa de suicídio na carceragem da PF em Minas Gerais.
Ministro Flávio Dino e a investigação de precatórios irregulares
Em paralelo, o ministro Flávio Dino do Supremo Tribunal Federal, enviou ao presidente do STF, Edson Fachin, um ofício solicitando a identificação de todos os precatórios pagos de forma irregular nos últimos anos. O pedido decorre de indícios surgidos nas apurações do Banco Master, que teriam favorecido o setor sucroalcooleiro ao adquirir títulos emitidos por essas empresas. Dino relembrou seu voto de março, no qual a Advocacia-Geral da União pediu o cancelamento de precatórios avaliados em R$ 5 bilhões pelo TRF-1. Ele enfatizou a necessidade de rastrear a suposta “organização criminosa” que movimenta tais títulos, verificando cadeias de cessão, valores efetivamente pagos e responsáveis pelos fundos creditórios.
Contrato suspeito entre Master e escritório de advocacia
O caso ganhou maior repercussão após o portal Metrópoles divulgar um contrato de R$ 427 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do TRF-1. O documento, encontrado no celular de Daniel Vorcaro, previa pagamento em caso de êxito nas demandas do setor sucroalcooleiro. O escritório Queiroga, Vieira, Queiroz e Ramos afirmou possuir contrato formal com o banco, mas que jamais recebeu honorários de “pró-labore” ou de êxito, limitando-se a uma taxa de 5 % – inferior ao previsto no CPC e no estatuto da OAB.
Conselho do MPF debate atuação de Paulo Gonet
Ao mesmo tempo, o Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) se dividiu em votação (5 a 4) sobre a necessidade de aprofundar as investigações envolvendo o procurador-geral da República, Paulo Gonet por supostos contatos com Vorcaro. O relator, Francisco Sanseverino, votou pelo arquivamento, alegando falta de materialidade e autoria mínima. Ele destacou que as mensagens extraídas do celular de Vorcaro não demonstram conversa direta ou benefício concreto ao PGR.
Posições divergentes no Conselho
Alguns conselheiros, como Janice Ascari e Samantha Chantal, pediram a designação de um subprocurador-geral para conduzir uma apuração preliminar, argumentando que as referências a Gonet – inclusive foto em confraternização em Londres – podem indicar conflito de interesses. Celso de Albuquerque acompanhou o relator, reforçando a ausência de provas de que o filho de Gonet foi convidado ou que despesas foram custeadas. Já Alexandre Camanho afirmou que a eventual suspeição deveria ser analisada pelos tribunais competentes, não pelo CSMPF. O voto de José Adônis, embora a favor da aprofundamento, ressaltou que o órgão não pode decidir sobre nulidade de relatórios nos quais ele próprio aparece citado.
Em síntese, o emaranhado de depoimentos da Polícia Federal a iniciativa do ministro Flávio Dino para mapa de precatórios e a controvérsia interna do MPF refletem a complexidade de um escândalo que envolve lavagem de dinheiro, crimes cibernéticos e possíveis irregularidades judiciais. Enquanto as investigações avançam, o panorama jurídico-institucional permanece em tensão, aguardando decisões que possam elucidar a extensão das supostas práticas ilícitas ligadas ao Banco Master.



