A madrugada de 25 de outubro marcou a volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto, desta feita para um quarto mandato. Com 51,78% dos votos válidos, o petista superou Flávio Bolsonaro, do PL, que havia liderado o primeiro turno. Esta reviravolta histórica é a primeira vez desde a redemocratização que o candidato que termina à frente na primeira votação perde no segundo turno, sublinhando a volatilidade do eleitorado brasileiro.
Além do aspecto político, a vitória traz à tona um cenário econômico delicado. O novo mandato herda uma dívida pública que já ultrapassa 82% do PIB, número que supera em muito o patamar registrado ao final da gestão anterior (72%). O custo anual da dívida chega a 9% do PIB, indicando que os juros estão em trajetória ascendente e podem sufocar o setor privado caso não haja ajustes estruturais.
Eleições de 2026 e a conquista do quarto mandato
Nos números oficiais, Lula obteve 53,9 milhões de votos (45,16%) no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 56,1 milhões (47,03%). A diferença de cerca de 2,22 milhões de eleitores foi revertida no segundo turno, onde a base petista mobilizou apoio suficiente para garantir a maioria absoluta. Essa vitória não apenas entrega a Lula o título de primeiro presidente brasileiro eleito quatro vezes por voto direto, como também representa a segunda derrota consecutiva do bolsonarismo nas urnas presidenciais.
Pressão sobre as contas públicas: dívida e gastos
O desafio imediato do governo recai sobre a sustentabilidade fiscal. Segundo a consultoria Pinotti & Schwartsman Associados, o peso total da máquina pública – União, estados e municípios – já representa 18,3% do PIB, acima da média dos países emergentes (16,2%) e da América Latina (14,6%). O relatório destaca que “para um volume de gastos do tamanho do brasileiro, a sociedade espera resultados à altura“.
Além da dívida, o gasto primário está projetado para alcançar 19,2% do PIB ao final de 2026, comparado a 17,9% no início do mandato anterior. Mesmo com essas elevações, a população percebe pouca evolução nos indicadores de qualidade dos serviços. A consultoria adverte que “basta, contudo, olharmos para a qualidade dos serviços básicos providos pelo Estado, como educação, saúde e segurança, para constatar que essa expectativa não tem sido atendida“.
Componentes da dívida e medidas emergenciais
O endividamento atual inclui mais de R$ 350 bilhões em novas despesas aprovadas durante a campanha, além de compromissos de longo prazo. Entre os programas de destaque está o Pé-de-Meia universitário, que prevê um auxílio de R$ 700 mensais para estudantes, custando cerca de R$ 4,6 bilhões ao ano, financiado pelo Fundo Social do pré-sal. A análise indica que tais iniciativas, embora populares, aumentam a pressão sobre as contas sem que a origem dos recursos seja claramente apresentada.
Desempenho dos serviços públicos e demandas sociais
No campo da educação, os resultados do PISA de 2025 revelam que 72% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível 2 em matemática, e mais da metade não atingiu proficiência em leitura e ciências. Esse desempenho estabilizou-se após avanços iniciais nos anos 2000, indicando estagnação apesar do aumento de investimentos.
Na saúde, o gasto per capita passou de R$ 472 em 2000 para R$ 1.012 em 2025 (valores corrigidos pela inflação), mais que dobrando ao longo de 25 anos. Contudo, pesquisas de opinião ainda apontam insatisfação geral, sugerindo que o aumento de recursos não se traduziu em melhoria perceptível.
Em relação às transferências sociais, a parcela destinada a pessoas e famílias atingiu 18,9% do PIB em 2023, com a previdência representando a maior fatia – mais que o dobro da mediana latino-americana (7,6%). O relatório da consultoria enfatiza que “será preciso melhorar a qualidade dos serviços públicos, tornando-os compatíveis com a elevada carga de impostos paga pelos brasileiros” e que a busca por eficiência deve ser prioridade para evitar a repetição dos erros passados.
Em síntese, a vitória de Lula oferece uma oportunidade política, mas impõe um cenário fiscal complexo. A administração terá de equilibrar a expansão de políticas sociais com a urgência de conter o crescimento da dívida, melhorar a alocação de recursos e garantir que os serviços públicos reflitam a carga tributária suportada pelos cidadãos.



