Pular para o conteúdo
26 setembro 2026

Como o déficit fiscal pode mover o dólar e o Ibovespa

Mercado interno está dividido entre otimismo cauteloso e medo de dívida; veja como cenário fiscal e taxas Selic podem mudar o panorama.

Como o déficit fiscal pode mover o dólar e o Ibovespa

Com a corrida presidencial a poucos dias do segundo turno, investidores brasileiros monitoram duas variáveis cruciais: a capacidade do futuro governo de controlar a questão fiscal e a trajetória da política monetária. Enquanto o déficit primário continua elevado, o cenário de juros mantém-se próximo dos níveis mais altos da história recente, o que cria um ambiente de incerteza que pode reverberar tanto no dólar quanto no Ibovespa.

Perspectivas do BofA para a Bolsa e a taxa Selic

O Bank of America (BofA) estima que o índice de ações já incorpora cerca de 40% de probabilidade de um cenário positivo – conhecido como bull case – em comparação com apenas 27% há um mês. Essa mudança reflete a recuperação dos fluxos externos e o otimismo relativo ao Brasil, mas o banco avisa que a alta da Bolsa ainda depende de uma agenda agressiva de cortes na Selic. O modelo do BofA projeta que, para sustentar o otimismo, a taxa básica deverá chegar a 10,5% ao final de 2027, acompanhada de um modesto aumento nos lucros corporativos e de uma reprecificação positiva dos múltiplos.

Em contraponto, o cenário pessimista pressupõe a manutenção da taxa atual, sem novos recortes, resultando em múltiplos deprimidos e risco de retração dos preços das ações. O relatório enfatiza que essas projeções são meramente analíticas e não constituem previsão de resultado eleitoral.

Sentimento dos gestores de fundos

Uma pesquisa recente do BofA com gestores latino-americanos revela que 73% acreditam que o Ibovespa fechará o ano acima de 180 mil pontos – alta significativa frente aos 34% do mês anterior. Contudo, apenas 30% dos entrevistados afirmam que ampliariam a exposição à Bolsa nos níveis atuais, preferindo aguardar correções ou maior clareza sobre o cenário político.

Análise da Empiricus sobre ajuste fiscal e repercussões nos mercados

A Empiricus Research destaca que, para estabilizar a dívida pública, o Brasil precisaria gerar um superávit primário recorrente entre 1,5% e 2% do PIB, o que equivale a cerca de 3 pontos percentuais a mais que o desempenho atual. Nos últimos 12 meses até junho de 2026, o país registrou déficit primário de 1,19% do PIB e um déficit nominal – já com juros – próximo a 10% do PIB, sendo quase 9 pontos desse total representados apenas pelos encargos da dívida.

Os analistas da Empiricus esboçam um plano de ajuste fiscal considerado “crível” quando inclui cinco pilares: desaceleração das despesas obrigatórias, revisão de indexações e benefícios, limitação de novas exceções ao arcabouço, metas primárias verificáveis e preservação da autonomia do Banco Central. A proposta sugere que o ajuste possa ser distribuído ao longo de alguns anos, permitindo a transição do déficit primário para superávit recorrente.

Impactos esperados nos principais ativos

Se as medidas de ajuste forem percebidas como plausíveis, o mercado pode antecipar seus efeitos antes da consolidação dos indicadores fiscais. Um ajuste focado em aumento de tributos tenderia a beneficiar a renda fixa e o câmbio, mas poderia limitar a renda disponível e, consequentemente, a margem das empresas. Por outro lado, um ajuste baseado na contenção de despesas e na melhora da governança orçamentária tem potencial de gerar um ciclo virtuoso queda no prêmio exigido pelos títulos públicos, redução da curva de juros de longo prazo e maior ingresso de capitais estrangeiros, o que poderia fortalecer o real e reduzir as expectativas inflacionárias.

Na visão dos analistas, essas condições favorecem a expansão dos múltiplos de avaliação da bolsa, possibilitando que o Ibovespa alcance patamares entre 205 mil e até 300 mil pontos, caso o ajuste seja efetivo e duradouro. Em contrapartida, a falta de um plano credível pode levar o dólar a ultrapassar a marca de R$7 e puxar o índice abaixo de 107 mil pontos.

Em síntese, a encruzilhada entre a política fiscal e a monetária permanece o ponto central para os investidores. Enquanto o clima político ainda é incerto, a capacidade de gerar um ajuste fiscal estruturado e de avançar em cortes de Selic será decisiva para definir se o Brasil entrará em um ciclo de valorização ou se os mercados reagirão com desvalorização dos ativos.