Na quarta-feira, dia 16, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu abaixar a taxa básica de juros de 14% para 13,75% ao ano. Trata-se do quinto corte sucessivo desde março deste ano, quando a Selic apontava 15% ao ano. A medida era amplamente esperada, mas o mercado ainda debate se haverá nova redução na reunião de novembro ou se o Banco Central fará uma pausa para avaliar os efeitos já observados.
Expectativas de mercado e panorama da inflação
Analistas do BTG Pactual e do Itaú BBA projetam que a Selic se mantenha em 13,75% até o final de 2026, enquanto a XP investimentos antecipa mais dois recortes de 0,25 ponto, chegando a 13,25%. A principal motivação para a tendência de baixa tem sido a recente desaceleração da inflação: o IPCA registrou queda de 0,32% em agosto e a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,44% para 4,22%, impulsionada sobretudo pela redução de 7,63% nas tarifas de energia elétrica, fruto do bônus de Itaipu. Especialistas alertam, porém, que esses fatores são temporários e que outros componentes de preços ainda dão trabalho ao BC.
Repercussões no crédito imobiliário
O setor de habitação já apresentava sinais de recuperação antes mesmo da queda da Selic. Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que, no primeiro semestre de 2026, o crédito imobiliário cresceu 23% em relação ao mesmo período do ano anterior, totalizando R$ 180,9 bilhões, dos quais R$ 93,7 bilhões vieram do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). Esse movimento indica que a demanda não estava travada à espera de juros menores; a continuidade dos cortes pode, no entanto, reduzir gradualmente a principal barreira ao crescimento: o custo do dinheiro.
É importante compreender que o financiamento imobiliário no Brasil não segue diretamente a Selic. Os bancos utilizam recursos da poupança do FGTS e aplicam a Taxa Referencial (TR) como correção, o que cria um descolamento entre a taxa básica e a taxa contratada pelos mutuários. Por isso, a redução de 0,25 ponto percentual na Selic não implica, de modo automático, diminuição equivalente nas parcelas já contratadas.
Renegociação e portabilidade como caminhos
Especialistas como Beny Fard, da Segundo Minuto, recomendam que os tomadores de crédito coloquem o contrato em discussão, mas com pragmatismo. Se os bancos passarem a oferecer condições mais vantajosas, o mutuário pode solicitar uma revisão da taxa ao próprio credor ou ainda mover a dívida para outra instituição por meio da portabilidade. Jonata Tribioli, da IBR Capital, afirma que simular propostas em concorrentes costuma fortalecer a negociação com o banco atual. Daniel Ricci, da Creditas, destaca que o impacto do corte na Selic depende do custo de captação dos bancos, do prazo do contrato e do perfil de risco do cliente.
Para quem assinou financiamento quando as taxas estavam próximas de 15%, a diferença pode ser significativa. Contudo, Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, alerta que cada caso deve ser analisado individualmente, pois a redução da Selic não se traduz automaticamente em redução da taxa de juros efetiva do contrato.
O que o futuro pode reservar
Além das variáveis internas, o cenário externo também exerce influência. O Federal Reserve norte-americano elevou sua taxa em 0,25 ponto percentual, aumentando o diferencial entre os juros brasileiros e americanos e potencialmente pressionando o câmbio. Eventos climáticos, como o El Niño, podem elevar preços de alimentos e commodities, trazendo novo risco inflacionário. No plano doméstico, a política fiscal e a proximidade das eleições presidenciais ainda são fontes de incerteza que podem limitar a velocidade de novos cortes.
Em síntese, a redução da Selic para 13,75% abre espaço para que o ambiente de crédito se torne mais favorável, mas não garante diminuição automática das prestações. Consumidores que já pagam parcelas devem avaliar a possibilidade de renegociação ou portabilidade, sempre comparando propostas e considerando o perfil de risco de sua operação. Enquanto o BC decide seu próximo passo, o mercado imobiliário tende a absorver gradualmente os benefícios da taxa mais baixa, impulsionando novos lançamentos e ampliando a oferta de imóveis.



