No painel “UNICEF e TokenNation apresentam blockchain pelas crianças”, representantes do UNICEF detalharam a trajetória da instituição com tecnologias de registro distribuído. Em fala conduzida por Felipe Gonzalez, o órgão explicou como começou a testar soluções desde 2017 em contextos de emergência e como essas experiências evoluíram para programas de maior alcance. A apresentação destacou tanto o papel de arrecadação de recursos quanto o fortalecimento de capacidades técnicas internas, sempre com foco no benefício direto às crianças e às comunidades afetadas.
Da resposta humanitária à experimentação institucional
As primeiras iniciativas do UNICEF com blockchain surgiram em cenários onde era preciso rastrear deslocamentos e gerenciar suporte em ambientes complexos. Nessas ações, houve uso de tokenização de identidades para mapear populações em situação de refúgio e garantir que insumos e assistência chegassem adequadamente. A partir desses pilotos, a organização acumulou evidências práticas sobre limites e benefícios da tecnologia, o que pavimentou discussões internas sobre governança, segurança e integração com operações tradicionais humanitárias.
Parcerias estratégicas e o fundo em cripto
Em 2019, o UNICEF aprofundou sua aposta ao firmar colaboração com a Ethereum Foundation, criando o primeiro modelo de fundo em criptomoedas nas Nações Unidas. Além de possibilitar captação de recursos em criptoativos, essa iniciativa foi concebida para transferir habilidades técnicas para equipes operacionais, ao mesmo tempo em que testava estruturas de compliance e gestão dentro de um organismo multilaterial. A experiência serviu como laboratório para entender como ativos digitais podem complementar fontes tradicionais de financiamento humanitário.
Resultados atuais e escopo global
Segundo Felipe Gonzalez, hoje o UNICEF apoia 23 soluções baseadas em blockchain e afirma impactar direta e indiretamente 31 milhões de vidas em 159 países. Esses números refletem projetos variados — desde ferramentas para rastreamento até plataformas de engajamento comunitário — e indicam um esforço por converter aprendizados experimentais em aplicações replicáveis. A diversidade geográfica das iniciativas reforça a necessidade de soluções que considerem contextos locais, interoperabilidade e conformidade regulatória.
Três lentes para avaliar tecnologia
Gonzalez descreveu três critérios que orientam a adoção: auditabilidade, código aberto e escala. Pela lente da auditabilidade, o uso de contratos inteligentes e mecanismos de tokenização permite acompanhar o destino e o efeito de investimentos, aumentando a transparência para doadores e beneficiários. Já o aspecto de código aberto visa garantir que soluções sejam adaptáveis às realidades locais, possibilitando customizações e contribuindo para capacidade técnica comunitária. Por fim, a lente da escala considera como projetos podem se integrar a infraestruturas digitais públicas e crescer sem perder proteção e governança.
Implicações para políticas públicas
Ao priorizar ferramentas que favoreçam interoperabilidade e transparência, o UNICEF busca influenciar a forma como autoridades e organizações adotam tecnologia. A ênfase na proteção ampliada quando se opera em infraestruturas públicas reflete uma preocupação com segurança de dados, privacidade e responsabilização. Esses princípios são pensados para que iniciativas tecnológicas não apenas resolvam problemas imediatos, mas também fortaleçam capacidades administrativas e a confiança pública no longo prazo.
O caso brasileiro: Heliópolis e protagonismo juvenil
No Brasil, a cooperação entre UNICEF e TokenNation começou em 2026 com o desenho de um protótipo de ações em blockchain voltadas para crianças em Heliópolis, dentro do programa Helipa Games. A proposta envolveu a participação ativa de meninas locais no desenvolvimento de jogos e ferramentas digitais, com foco em aprendizagem, inclusão e liderança. Esse trabalho local foi expandido e transformado em um festival de games em 2026, que consolidou práticas de co-criação e formação de agentes de inovação comunitária.
Formação de agentes locais
Um dos desdobramentos mais visíveis do projeto foi a capacitação de jovens como líderes de inovação. Hoje, meninas formadas pela iniciativa lideram projetos que envolvem famílias e vizinhos, atuando como pontes entre tecnologia e demandas reais do território. Essa evolução ilustra como a tecnologia pode ser catalisadora de protagonismo comunitário quando combinada com metodologias participativas e com acesso a conhecimentos técnicos.
Em suma, a experiência do UNICEF com blockchain mostra uma trajetória que vai de pilotos humanitários a projetos de escala, sempre orientada por critérios de auditabilidade, abertura e possibilidade de expansão. Os casos em Heliópolis demonstram como princípios globais podem ser aplicados em contextos locais, resultando em impacto social e em fortalecimento de capacidades comunitárias.