Na noite da última quarta-feira (27) a Raízen apresentou um documento técnico com os termos de sua recuperação extrajudicial, gerando forte repercussão no mercado e uma queda acentuada do papel RAIZ4 na sessão seguinte, quando as ações fecharam cotadas a R$ 0,34 na quinta (28). O material, referido pela companhia como blowout, revela uma estrutura complexa de reestruturação que combina conversão de dívida, emissão de ações e aporte de capital dos controladores.
Segundo o relatório, a companhia registra uma dívida total de R$ 75,35 bilhões, sendo R$ 65,4 bilhões o valor submetido ao processo de recuperação. A proposta traz alternativas para credores com perfis distintos de risco e prazo, além de prever mudanças societárias e operacionais que afetariam o controle e a governança da empresa.
Elementos centrais da proposta
O plano prevê que os controladores façam aportes equivalentes a até R$ 4 bilhões antes do fechamento: R$ 3,5 bilhões vindos da Shell, convertidos a R$ 0,25 por ação, e a possibilidade de R$ 500 milhões por meio de um veículo ligado à Aguassanta Investimentos, de Rubens Ometto, controlador da Cosan (CSAN3). Além disso, está prevista a emissão de novas ações ordinárias.
Consequências para participação acionária
Analistas do UBS BB destacam que, se a conversão for aprovada nos termos propostos, os credores passariam a deter cerca de 83% da empresa no total, o que equivaleria a aproximadamente 72% das ações ordinárias. Essa diluição reflete o impacto da conversão massiva de dívida em participação acionária a preços muito abaixo das cotações anteriores.
Estrutura do novo capital e governança
O documento traz também um redesenho da governança: após a conclusão da reestruturação, o conselho de administração teria sete membros, com quatro assentos indicados pelos credores apoiadores — inclusive a presidência do colegiado — e três indicados pelos acionistas investidores. A mudança sinaliza transferência significativa de poder aos detentores de crédito convertidos.
Outra medida de grande impacto operacional é a proposta de cisão da companhia em Raízen Energia e Raízen Combustíveis, a ser implementada depois do fechamento. Essa separação dependeria de acordos relacionados à venda de ativos de geração, desinvestimentos em ativos não estratégicos e reorganização das usinas da unidade de energia.
Garantias e flexibilidades incluídas
O plano atribui garantias sobre ativos operacionais — plantas, tanques e instalações — e oferece à empresa flexibilidade para gestão de fluxo: previsão de adiamento do pagamento de juros por até três anos, mediante pagamento de prêmio posteriormente. Os prazos de vencimento da nova dívida variam conforme a opção escolhida pelos credores.
As três opções direcionadas aos credores
A corretora XP Investimentos detalhou três alternativas oferecidas no plano, com trade-offs diferentes entre risco, liquidez e exposição ao valor futuro da companhia.
Opção A — parte em ações e parte em nova dívida
Considerada a alternativa mais abrangente, a Opção A propõe que o credor converta 45% do crédito em ações ao preço de R$ 0,25 por ação (mesmo preço do aporte dos controladores) e mantenha 55% em nova dívida reestruturada, alocada entre Raízen Combustíveis e Raízen Energia. A nova dívida preserva a moeda de escolha do credor (real, dólar ou euro) e traz prazos longos, com vencimentos entre 2032 e 2035, além de remunerações distintas por segmento.
Opção B — nova dívida com haircut
A Opção B oferece uma solução mais conservadora em participação acionária: o credor aceita um desconto de 80% no saldo e recebe o remanescente em uma única dívida de longo prazo com vencimento previsto para 2047, corrigida pela Taxa Referencial, sem indexação em dólar ou euro. A empresa pode optar por pré-pagamentos com desconto conforme parâmetros definidos.
Opção C — pagamento imediato para credores de varejo
A Opção C foi desenhada para credores de menor porte: pagamento à vista de até 75% do crédito, limitado a R$ 9.750 por credor e a um teto global de R$ 150 milhões (correspondente a R$ 200 milhões em créditos considerados). Se a demanda superar o limite, a alocação será progressiva, priorizando os menores saldos, e os recursos não utilizados permanecerão como capital de giro da companhia.
Próximas etapas do processo
O plano precisa ser aprovado por mais da metade dos credores sujeitos à recuperação judicial. Assembleias específicas sobre as dívidas ocorrerão nas semanas seguintes, e os termos finais podem ser ajustados durante esse período de negociação. A reportagem usa informações da XP Investimentos, UBS BB e material divulgado pela própria Raízen, com apuração complementar da Reuters.