Nos últimos anos, a relação entre bancos e o universo das criptomoedas deixou de ser apenas conflito para se tornar uma cooperação prática. O movimento não é impulsionado apenas por estratégias corporativas no topo, mas por um padrão de uso cotidiano: clientes e empresas buscam alternativas mais eficientes para proteção de valor, remessas e liquidações. A partir dessa demanda, instituições financeiras históricas passaram a testar e incorporar stablecoins e soluções de custódia, reconstruindo partes da infraestrutura tradicional com parceiros especializados.
Essa transformação se apoia tanto em volumes elevados quanto em escolhas operacionais. Dados de mercado indicam um salto significativo no fluxo de criptomoedas na região — um crescimento de 800% entre 2026 e 2026 — e uma mudança na composição desses fluxos: em julho de 2026, as stablecoins representavam 90% das participações regionais, frente a 60% em 2026. No Brasil, o peso é ainda maior dentro de um volume total regional, com cerca de US$ 318,8 bilhões em 2026 e mais de 90% dos fluxos locais relacionados a stablecoins, segundo o Banco Central.
A ascensão das stablecoins como infraestrutura
Ao contrário da visão especulativa que dominou as manchetes no passado, muitas stablecoins estão sendo tratadas como componentes de infraestrutura. Aqui, stablecoins são moedas digitais atreladas a ativos estáveis, geralmente projetadas para reduzir volatilidade e facilitar transferências instantâneas. Bancos como BCP Peru, Banco Santander Brasil, BCP Bolívia, Tower Bank, Caja de Valores e a bolsa B3 já incorporam ou estudam produtos que usam esses ativos como meio de liquidação ou complemento a serviços existentes. Isso transforma as stablecoins de uma curiosidade em uma peça ativa da infraestrutura financeira.
Três pilares que sustentam a integração
Para que essa convivência evolua de testes para rotinas, três vetores aparecem como essenciais: apoio institucional e regulatório, segurança com padrões institucionais e integração operacional por meio de APIs. Esses vetores permitem que bancos mantenham governança e conformidade enquanto ganham agilidade. Provedores especializados oferecem camadas técnicas e legais que reduzem o ônus de desenvolver soluções do zero, criando um ambiente em que produtos tradicionais e digitais podem coexistir de forma segura.
Apoio regulatório e institucional
O papel de empresas com aprovação regulatória é central para essa ponte. Um exemplo relevante é a atuação da BitGo, que obteve reconhecimento regulatório nos Estados Unidos — incluindo aprovação do OCC para operar com licença federal — e se posiciona como fornecedor de infraestrutura confiável. Esse tipo de credencial ajuda bancos e autoridades a estabelecer padrões de governança, auditoria e gestão de riscos, reduzindo resistências e acelerando a adoção institucional.
Segurança de nível institucional e integração operacional
Além da conformidade, a segurança técnica e a integração são cruciais. Provedores construíram soluções de custódia e processamento com segurança de nível institucional, minimizando atritos para clientes finais. Por outro lado, a conexão direta entre ativos digitais e sistemas bancários por meio de APIs elimina a necessidade de camadas improvisadas sobre sistemas legados. Isso reduz silos operacionais e facilita a criação de produtos que combinam tradição e inovação.
Impactos práticos e perspectivas na região
Uma mudança técnica profunda mencionada por operadores é a transição de um modelo baseado em mensageria, como o SWIFT, para um modelo baseado em ativos, que permite liquidação atômica. Liquidação atômica refere-se a pagamentos cuja transferência e confirmação final acontecem simultaneamente, eliminando dias de espera e riscos de contraparte. Esse padrão abre espaço para contas remuneradas em stablecoins, folhas de pagamento transfronteiriças instantâneas e remessas com custo substancialmente menor. No Brasil, fatores como o Pix e iniciativas como o Drex ajudam a acelerar essa integração, tornando o país um laboratório estratégico para novas soluções.
O avanço não elimina desafios: governança, interoperabilidade e educação do usuário seguem como prioridades. Ainda assim, a narrativa mudou: em vez de encarar cripto apenas como ameaça, muitos bancos a veem como atualização operacional. Para instituições que desejam competir em custo, velocidade e alcance, a combinação entre plataformas reguladas, stablecoins e integração via APIs oferece um caminho prático. A próxima etapa deverá trazer produtos híbridos que misturam serviços bancários tradicionais com as vantagens imediatas de ativos digitais — tudo isso dentro de estruturas regulatórias que assegurem transparência e proteção.