A Câmara Municipal de São Paulo vem ampliando o escrutínio sobre as atividades da Tools for Humanity, organização responsável pelo projeto Worldcoin e pelo sistema World ID. Em reuniões recentes, os vereadores questionaram tanto a dinâmica de pagamento aos operadores de rua quanto a transparência das informações repassadas aos cidadãos que aceitaram escanear a íris em troca de criptomoedas.
O trabalho da Comissão Parlamentar de Inquérito — conhecida como CPI da Íris — aprofundou dúvidas sobre a existência de bônus por metas e sobre a eventual comercialização de dados biométricos.
A presidência da comissão, comandada pela vereadora Janaina Paschoal (PP), e a relatoria, sob responsabilidade da vereadora Ely Teruel (MDB), têm solicitado documentos e depoimentos para esclarecer os fatos.
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Como funciona a suspeita de remuneração e por que isso preocupa
Parlamentares relatam que os atendentes dos estandes recebiam uma parcela fixa de remuneração e um adicional atrelado ao número de capturas realizadas. Esse modelo de incentivo gerou inquietação na CPI, já que um sistema que recompensa volume de cadastros pode criar um conflito de interesses e induzir à coleta indiscriminada.
Do ponto de vista dos vereadores, a existência de prêmios por desempenho contraria a narrativa oficial de um projeto voltado apenas à construção de uma rede de verificação de identidade. A comissão exige que representantes da empresa compareçam ao plenário para detalhar a estrutura de pagamentos aplicada no Brasil, com a finalidade de entender responsabilidades e regras operacionais.
Acusações sobre lucro e comercialização de dados
Durante as oitivas, a vereadora Janaina Paschoal afirmou que há indícios de interesses comerciais por trás da coleta biométrica, com a possibilidade de a empresa lucrar ao ampliar sua base de usuários e promover a adoção da Worldcoin (WLD). Essa hipótese foi reforçada por depoimentos e relatórios preliminares reunidos pela CPI.
Posição da Tools for Humanity e respostas dos executivos
A companhia apresentou representantes ao colegiado; entre eles, Rodrigo Tozzi, chefe de operações no Brasil, voltou a declarar que os dados pessoais não são armazenados e que apenas um código criptografado é gravado em servidores de instituições parceiras. Tozzi também negou a comercialização dos registros coletados pelas máquinas.
No entanto, os parlamentares ressaltaram contradições entre essas garantias e relatos de que a empresa teria demonstrado suas tecnologias a órgãos públicos, o que levanta a pergunta sobre se houve ou não intenção de oferecer serviços no âmbito estatal. Tozzi afirmou que tais reuniões tinham caráter institucional e informativo.
Riscos de privacidade, terceirização e responsabilidades legais
A relatora Ely Teruel questionou a terceirização das operações de coleta de biometria, apontando lacunas sobre quem responderia judicialmente por eventuais falhas de segurança. Segundo a equipe da empresa, a terceirização é uma prática adotada globalmente, mas a CPI assinalou que faltaram explicações claras sobre obrigações legais no contexto brasileiro.
Especialistas e a ameaça à proteção de dados
O colegiado aprovou o convite a uma perita em privacidade de dados — por indicação da assessoria da vereadora Amanda Vettorazzo (União) — para avaliar os riscos do World ID à segurança digital e ao sigilo biométrico da população. A presença de uma especialista visa detalhar cenários de vazamento e as medidas necessárias para mitigar ameaças.
Além disso, depoimentos colhidos pela CPI apontaram que os executivos chegaram a admitir a possibilidade, no futuro, de reverter processos de anonimização caso surgissem novas técnicas, o que acendeu alertas sobre a durabilidade das garantias apresentadas.
Procedimentos em andamento e cronograma
A comissão aprovou pedidos formais de informações e convocou representantes da empresa para prestar esclarecimentos. A agenda da Câmara prevê a entrega do relatório final da CPI para o dia 7 de abril, quando serão consolidadas as evidências e as conclusões das investigações realizadas ao longo dos últimos meses.
Alguns alvos da comissão, como Anna Carvalhido, líder de políticas públicas da empresa no Brasil, chegaram a ser convidados para depor mas ausentaram-se por motivos de saúde, o que prolonga a lista de questões pendentes. Vereadores de diferentes partidos acompanharam as sessões e aprovaram os requerimentos com a intenção de obter total transparência.
O que a população deve observar
Para cidadãos que participaram das campanhas de escaneamento, a recomendação implícita é acompanhar as deliberações da CPI e exigir informações claras sobre o destino dos dados e as garantias de anonimização. A investigação legislativa busca não só apurar responsabilidades, mas também proteger grupos em situação de vulnerabilidade que foram foco das atividades de coleta.
