A Velt Partners, gestora conhecida por sua disciplina em value investing, anunciou uma mudança de rumo no modelo de atuação. Segundo os responsáveis, o mercado brasileiro oferece hoje um número menor de empresas abertas que se encaixam no perfil tradicional da casa, o que tornou a Bolsa de Valores um universo restrito para suas buscas por valor. A gestora administra cerca de R$ 2 bilhões e, diante dessa realidade, optou por ampliar as frentes de atuação sem abandonar o compromisso com a transparência perante os clientes.
Na prática, a Velt reduzirá a dependência exclusiva de ações negociadas publicamente e passará a avaliar operações fora do mercado organizado, mantendo os fundos tradicionais até que as novas frentes estejam implementadas. A equipe foi ajustada: houve redução de cerca de 25 para 10 profissionais, refletindo tanto a redefinição de foco quanto a necessidade de um time mais enxuto para projetos distintos. A carteira de investidores inclui principalmente recursos estrangeiros, enquanto, no Brasil, uma parcela relevante dos ativos está vinculada ao próprio Mauricio Bittencourt, sócio-fundador.
Index du contenu:
Por que a Bolsa passou a ser menos atraente para a Velt
A decisão não nasceu de uma crise pontual, mas de uma avaliação estrutural do universo listado. A Velt percebeu que, nos últimos anos, diminuiu o número de empresas com modelos de negócio e governança compatíveis com seu processo de seleção. O termo value investing — uma abordagem que privilegia empresas subvalorizadas com fundamentos sólidos — continua no centro da filosofia, mas a oferta de alvos públicos diminuiu. Assim, a gestora concluiu que ficar restrita à Bolsa de Valores limitaria a capacidade de gerar retorno consistente e de longo prazo para seus cotistas.
Quais são as frentes que serão exploradas
A nova estratégia prevê a entrada em instrumentos e estruturas que aproveitem o conhecimento em ações, sem depender exclusivamente do pregão. Entre as alternativas mencionadas estão operações privadas e crédito conversível, ambos vistos como meios para participar da criação de valor em empresas de qualidade. A ideia é usar a experiência em análise acionária para estruturar investimentos que potencializem crescimento e governança, em vez de apostar em movimentos de curto prazo ou pura especulação.
Operações privadas
Nas operações privadas, a Velt pretende acessar empresas ainda fora do radar dos investidores do mercado aberto. O conceito de operação privada refere-se a aportes diretos em companhias com participação negociada de forma bilateral, sem passagem imediata pelo mercado acionário. Esse caminho permite influir na construção de valor, apoiar melhorias de gestão e, eventualmente, preparar empresas para uma abertura futura ou outra forma de desinvestimento que gere retorno superior ao disponível na Bolsa fechada.
Crédito conversível e estruturas híbridas
Outra frente é o crédito conversível, instrumento que combina dívida e potencial conversão em ações. Aqui o termo crédito conversível significa um financiamento que pode ser trocado por participação acionária sob condições preestabelecidas, oferecendo proteção inicial pela natureza de dívida e possibilidade de upside caso a empresa prospere. Para a Velt, essa estrutura permite trabalhar com empresas em estágios distintos, oferecendo capital com mecanismos de alinhamento entre investidores e gestores.
Impactos para clientes, equipe e governança
Do ponto de vista do investidor, a movimentação representa tanto oportunidade quanto mudança de perfil. A gestora reforça a comunicação com cotistas para explicar prazos, liquidez e riscos distintos entre fundos de ações e iniciativas privadas ou híbridas. A manutenção dos fundos tradicionais durante a transição busca preservar escolhas para os clientes atuais. Internamente, a redução da equipe reflete não só corte de custos, mas também realocação de competências para lidar com due diligence mais profunda, estruturação de operações e acompanhamento direto das empresas investidas.
Próximos passos e desafios
Os detalhes operacionais ainda estão em definição: a Velt informa que anunciará os veículos e estruturas conforme avançarem análises e autorizações necessárias. A transição exige atenção a governança, avaliação de liquidez e à calibragem de risco-retorno para investidores, especialmente os estrangeiros que são maioria entre os aportes. Para o sócio-fundador, adaptar-se a um mercado com menos opções públicas é um desafio, mas também uma oportunidade de aplicar a disciplina do value investing em ambientes onde a gestora pode contribuir diretamente para criação de valor e governança aprimorada.
