O início da penúltima semana de março chega com a atenção dividida entre a geopolítica internacional e eventos macroeconômicos domésticos. No Brasil, a manhã de segunda-feira (23) traz a divulgação da Pesquisa Focus, leitura semanal que reúne projeções para inflação, câmbio e crescimento.
Pouco depois, investidores passam a aguardar a publicação da ata do Copom e do Relatório de Política Monetária (RPM), documentos previstos para terça-feira (24) e que devem detalhar os sinais iniciais do ciclo de ajuste da Selic pelo Banco Central.
Enquanto isso, no cenário externo, a agenda americana aparece mais tranquila no calendário de segunda-feira, mas o mercado segue atento aos pronunciamentos dos membros do Federal Reserve. Comentários de autoridades monetárias e sinais sobre o impacto do preço do petróleo na economia dos EUA têm peso elevado na formação de preços. A combinação entre risco geopolítico e decisões de política monetária cria um ambiente de maior sensibilidade, com os ativos locais refletindo oscilações abruptas.
Index du contenu:
Reação dos mercados e dinâmica recente
Nas últimas sessões o Ibovespa mostrou-se sujeito a movimentos abruptos: após recuar e encerrar uma semana anterior em queda (-2,25% aos 176.219,40 pontos), o índice registrou recuperação de 1,25% em uma sessão posterior, alcançando 179.875,44 pontos. Ao mesmo tempo, o real se fortaleceu, levando o dólar comercial a recuar para R$ 5,229, enquanto os contratos futuros de juros (os DIs) viram queda generalizada ao longo da curva. Esse comportamento ilustra a sensibilidade do mercado local a fatores externos — sobretudo os preços do petróleo — e a mudanças nas expectativas sobre juros.
Fatores que impulsionaram a volatilidade
Do lado externo, a escalada entre Estados Unidos e Irã teve papel central. Em postagem na rede Truth Social, o presidente dos EUA fez ameaças diretas contra infraestruturas iranianas, com prazo de 48 horas para reabertura do Estreito de Ormuz; a mensagem, divulgada no sábado, 21, foi acompanhada por declarações calorosas sobre acontecimentos anteriores. As respostas de autoridades iranianas, e ameaças de retaliação contra sistemas de energia e água de países do Golfo, elevaram o risco percebido pelos mercados e impulsionaram o preço do Brent, que já chegou a romper patamares elevados (acima de US$ 110 em momentos recentes).
Impacto sobre o petróleo e sentimento global
Em meio à tensão, houve também movimentos políticos de apoio e logística: o Reino Unido autorizou o uso de bases britânicas por forças americanas em operações relacionadas à região. Ao mesmo tempo, declarações do governo americano indicando que permitiria a continuidade das exportações iranianas, segundo relatos, ajudaram a reduzir parte da pressão sobre os futuros do petróleo, trazendo alívio temporário aos mercados globais e impulsionando ganhos em Wall Street.
Agenda doméstica, inflação e combustíveis
Internamente, além da Pesquisa Focus e da ata do Copom, o país encara efeitos diretos na cadeia de combustíveis. Levantamento da ANP mostrou alta de 20,6% no preço do diesel na segunda semana de março em comparação com 22 a 28 de fevereiro, com o litro médio chegando a R$ 7,65 segundo reportagem. O movimento foi intensificado após reajustes da Petrobras e pelo repasse de preços internacionais decorrentes do conflito no Oriente Médio. Em paralelo, o presidente sinalizou intenção de recomprar a Refinaria de Mataripe (ex-Rlam) na Bahia, medida que pode alterar a dinâmica de oferta e os debates sobre a política de preços da estatal.
Expectativas para a Selic e decisões dos bancos centrais
Com dados de atividade como o IBC-Br mostrando leve alta em janeiro — o que indica possível aceleração do crescimento no 1.º trimestre — o dilema do Comitê de Política Monetária torna-se mais acentuado. Analistas revisaram estimativas: a XP abandonou expectativa de corte de 0,50 pp, passando a prever manutenção da Selic em 15% ao ano, enquanto instituições como JPMorgan e Itaú BBA mantêm previsão de início do afrouxamento mais cauteloso, com corte de 0,25 pp. A combinação de inflação ainda resistente, rali do petróleo e incerteza externa sugere que o tom do comitê seguirá prudente nas próximas reuniões.
Em suma, a confluência entre tensão geopolítica, variação dos preços de energia e calendário de decisões macroeconômicas mantém os investidores em alerta. O mercado acompanha de perto a ata do Copom e o RPM na terça-feira (24), além de eventos internacionais que podem alterar a trajetória dos preços do petróleo e das taxas de juros globais. O desfecho dessas peças será determinante para a evolução do Ibovespa, do câmbio e dos preços administrados no país.
