A fabricante francesa de equipamentos para IoT, Sequans, anunciou a venda de 1.025 bitcoins, montante que representou aproximadamente metade de sua reserva total no primeiro trimestre. A operação gerou cerca de US$ 83,6 milhões em receita bruta, mas também resultou em perdas reportadas no trimestre, já que a compra original das moedas foi feita por um preço médio próximo ao topo do mercado.
Esses números colocam em evidência os riscos de manter Bitcoin no balanço de empresas não financeiras, especialmente quando as moedas são usadas como garantia em instrumentos como dívida conversível.
No histórico recente, a Sequans já havia vendido 970 unidades em novembro, o que sinaliza uma estratégia de liquidação iniciada antes do movimento atual. Dados da Bitcoin Treasuries mostram que o preço médio de aquisição da carteira da Sequans foi de US$ 116.707 por bitcoin, contraste marcado com o custo médio de compra da Strategy, que está em US$ 75.537. A diferença nas bases de custo ajuda a explicar a magnitude das perdas realizadas e a sensibilidade da empresa a flutuações de preço.
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Detalhes contábeis e motivos da venda
No relatório trimestral, a empresa informou que sofreu uma perda líquida de US$ 11,7 milhões relacionada às vendas de Bitcoin realizadas no período. A direção da companhia justifica a liquidação como necessária para pagar uma dívida conversível e para financiar um programa de recompra de ações. Em 31 de março de 2026, a Sequans detinha 1.514 Bitcoin com valor de mercado de US$ 103,2 milhões, dos quais 1.217 Bitcoin (US$ 82,9 milhões) estavam vinculados como garantia para os US$ 66,2 milhões restantes de uma dívida conversível emitida em julho de 2026. A posição e as garantias explicam a necessidade de desalavancagem.
Atualização de abril e prazo de resgate
Em 30 de abril de 2026, após novas movimentações, a companhia declarou possuir 1.114 Bitcoin avaliados em US$ 84,9 milhões, com 817 Bitcoin (US$ 62,3 milhões) ainda dados como garantia para um saldo de dívida conversível de US$ 35,9 milhões. A empresa sinalizou que a dívida remanescente está programada para ser resgatada até 1º de junho de 2026, ocasião em que os ativos em Bitcoin deixariam de estar sujeitos a restrições e passariam a estar plenamente disponíveis para venda ou retenção estratégica. Essa calendarização influenciou o timing das operações.
Consequências no mercado e posição relativa
No pico de sua política de acumulação, a Sequans chegou a concentrar 3.234 bitcoins, mas as sucessivas vendas reduziram esse montante e fizeram com que a empresa caísse para a 40ª posição entre companhias públicas por volume detido. Após a divulgação das informações e do relatório, as ações da Sequans negociadas na NYSE exibiram uma variação negativa de cerca de 0,5% em um pregão indicado como terça-feira (5). Ainda que o papel já tenha sofrido uma queda acumulada significativa — citada em 99,56% em relação ao dólar desde 2011 — os movimentos em criptoativos tendem a afetar de forma distinta valor de mercado e liquidez disponível.
Reação de grandes compradores e dinâmica de preço
Enquanto a Sequans se desfazia de parte de sua reserva, a Strategy anunciou uma pausa nas compras, algo explicitado por Michael Saylor em um breve comunicado nas redes sociais em 3 de maio de 2026: “Sem compras esta semana. De volta ao trabalho na próxima semana.” Ao mesmo tempo, o Bitcoin superou a marca de US$ 81.000 nesta manhã, alcançando níveis não vistos desde janeiro. Se a criptomoeda continuar em tendência de alta, empresas que aproveitaram quedas para acumular poderão ver valorização em suas tesourarias; porém, ganhos potenciais não eliminam o risco de volatilidade e de pressão sobre balanços que compraram a preços mais elevados.
Lições para tesourarias corporativas
A experiência da Sequans ilustra como gestão de risco e sua relação com instrumentos financeiros — como a dívida conversível — são cruciais quando ativos voláteis integram o caixa. Para empresas que consideram alocar capital em Bitcoin, fatores como preço médio de aquisição, uso de garantias, cronograma de vencimentos e objetivos financeiros devem ser avaliados em conjunto. A comunicação com investidores e a transparência sobre políticas de tesouraria também se mostram determinantes para mitigar impactos reputacionais e operacionais durante períodos turbulentos de mercado.
