No memorando publicado em 10 de abr 2026, Howard Marks, cofundador da Oaktree, examina por que o mercado de crédito privado nos EUA apresenta sinais de fragilidade e como o comportamento coletivo dos investidores tem amplificado esses sintomas. Segundo Marks, não basta olhar apenas para retornos atraentes: muitos entraram em segmentos como o direct lending sem compreender limitações de mercado, estruturas de risco e a iliquidez inerente a esses ativos.
O texto ressalta ainda que o ambiente de juros baixos e a busca por yield levaram fluxos massivos para veículos que prometiam rendimento elevado, criando vulnerabilidades que surgem com mais clareza em ciclos de baixa.
Os problemas relatados incluem restrições de liquidez, emissões de risco elevado, e dúvidas sobre a correta precificação dos ativos. Marks chama atenção para a concentração setorial — especialmente em software — e para a possível influência da AI em modelos de negócios das empresas financiadas. Além disso, ele destaca que muitas dessas operações foram empacotadas em BDCs (Business Development Companies), listadas e negociadas por investidores de varejo, o que expôs participantes menos experientes a riscos difícilmente percebidos quando os mercados estavam favoráveis.
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Como o setor se desenvolveu após 2008
Ao traçar a evolução do segmento, Marks lembra que o espaço para o crédito privado cresceu quando os bancos recuaram diante de novas regulações pós-crise de 2008. Nesse vácuo, o direct lending ganhou força como fonte de financiamento para empresas médias e operações de private equity sem grau de investimento. A inovação atraiu capital, mas também atraímos participantes que desconheciam a dinâmica de valuation e liquidez. O resultado foi uma expansão do mercado acompanhada por práticas de precificação que, em muitos casos, refletiam menos fundamentos e mais apetite por retorno.
Psicologia do investidor
Marks explora a psicologia por trás da entrada tardia em tendências: o sucesso inicial provoca inveja e imitação, e quem chega por último aceita padrões mais baixos e preços mais altos. Essa dinâmica, segundo ele, se repete em ciclos: depois do pioneiro vem o imitador, depois o entusiasmado e por fim o investidor menos criterioso. A lição é clara: entender o ponto de partida de um investimento é tão importante quanto identificar a oportunidade. Perguntar-se qual preço é sensato para entrar — e não apenas quanto retorno é possível obter — é fundamental para evitar surpresas em reversões de mercado.
Riscos concretos e pontos de atenção
Entre os riscos mencionados estão a ilíquidez inerente a muitos instrumentos de crédito privado e a falta de transparência na medição de risco. Algumas emissões carregam perfil de crédito mais arriscado que o indicado pelos rendimentos, e a capacidade de vender posições rapidamente pode ser limitada em momentos de estresse. Além disso, a concentração setorial — com forte exposição ao setor de software — aumenta a sensibilidade a mudanças tecnológicas, incluindo os efeitos da AI sobre receitas e modelos de negócio. Esses elementos elevam a exigência de diligência e disciplina na precificação.
Comparação histórica
Marks não prevê um colapso total do direct lending. Ele compara o atual estágio a episódios do surgimento do high yield nas décadas de 1980 e 1990, quando a inovação também atraiu excesso de entusiasmo e ocasionou volatilidade. O mercado então sobreviveu e amadureceu, retornando mais disciplinado. Do mesmo modo, o segmento atual pode atravessar um ciclo de correção — com ajustes de preço e fluxo — antes de atingir um patamar mais sustentável.
E o que vem pela frente?
O cenário plausível descrito por Marks é o de um período de ajuste: correções de preço, reavaliação de risco e possivelmente interrupções noticiadas que, em grande parte, refletem fluxos e sentimento. Se houver disciplina renovada em precificação e gestão de risco, o mercado pode se estabilizar e até prosperar novamente. Investidores e gestores são aconselhados a perguntar menos pelo retorno imediato e mais pelo que estão pagando: avaliar a qualidade dos emissores, a estrutura dos fundos e a liquidez disponível é crucial para navegar a próxima fase.
Em suma, o memorando de Howard Marks serve como um lembrete de que a combinação entre fundamentos mais fracos e comportamento de manada cria volatilidade desnecessária. A lição central é simples e antiga: chegar cedo e com cautela tende a ser mais vantajoso do que entrar por pressão quando as avaliações já estão infladas. Para quem atua no crédito privado, a recomendação é manter disciplina, exigir transparência e questionar o preço antes de assumir novas posições.
