Uma nova demonstração prática elevou a discussão sobre computação quântica e criptomoedas quando o pesquisador independente Giancarlo Lelli anunciou ter recuperado uma chave privada de curva elíptica de 15 bits usando hardware quântico disponível na nuvem. O feito rendeu a Lelli o prêmio de 1 Bitcoin oferecido pela Project Eleven, em uma competição cujo objetivo é medir o progresso real de ataques quânticos contra sistemas de criptografia empregados por blockchains.
O experimento — divulgado em 24 de abril de 2026 — representa um avanço significativo em relação à demonstração pública anterior, feita em setembro de 2026, ampliando o alcance do ataque em um fator de 512.
Embora a chave testada esteja muito longe dos 256 bits usados no Bitcoin, a ocorrência mostra que os requisitos práticos para esse tipo de ataque estão mudando, especialmente quando pesquisadores conseguem operar em hardware acessível ao público.
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O que exatamente foi demonstrado
Na prática, Lelli utilizou plataformas quânticas de acesso remoto para derivar uma chave privada a partir de sua contraparte pública em um desafio artificial de 15 bits. Em termos simples, uma chave de 15 bits tem um espaço de busca pequeno — 32.767 possibilidades —, mas a conquista é relevante por demonstrar que técnicas quânticas aplicadas a ECC estão progredindo fora de laboratórios fechados. O resultado foi documentado no GitHub pelo próprio pesquisador, que também reportou testes bem-sucedidos com curvas de até 17 bits em hardware da IBM Quantum.
Por que a notícia não significa que o Bitcoin foi quebrado
É crucial diferenciar escala experimental de ameaça prática: o Bitcoin utiliza ECC de 256 bits, cujo espaço de chaves é astronomicamente maior que 15 bits. Um ataque capaz de quebrar 256 bits exigiria recursos bem além do que foi demonstrado. Ainda assim, relatórios recentes, incluindo um estudo da Google Research, reduziram estimativas sobre os recursos necessários para um ataque completo, e a Project Eleven alerta que a contagem de qubits e custos projetados vem caindo. Segundo a organização, essa redução torna a preparação para migração para criptografia pós-quântica uma questão de prioridade.
Estimativas e variabilidade dos números
Diferentes estudos e estimativas oferecem números distintos sobre quantos bitcoins estariam vulneráveis se um atacante chegasse a quebrar ECC 256 bits. Relatos mencionam que a Google avaliou cerca de 2,3 milhões de bitcoins em risco em um estudo anterior, enquanto estimativas levantadas pela Project Eleven citam aproximadamente 6,9 milhões de bitcoins associados a endereços com chaves públicas visíveis. Essa discrepância reforça que, além da capacidade técnica, a exposição depende do comportamento de carteiras e dos endereços que já revelaram chaves públicas na blockchain.
Reações, implicações e próximos passos
Nas redes, a demonstração provocou reações mistas: alguns minimizaram o experimento apontando que 15 bits é insuficiente para comparar com 256 bits, enquanto outros destacaram a rapidez do progresso quando ataques passam a ser executados em hardware público. O CEO da Project Eleven enfatizou que a submissão vencedora veio de um pesquisador usando hardware acessível pela nuvem, não de um laboratório estatal ou chip proprietário, o que sublinha a necessidade de discutirmos migrar para padrões pós-quânticos. Além disso, propostas técnicas como o BIP-360 e planos de transição publicados por projetos como Ethereum e outras plataformas já figuram entre as respostas em curso.
O que os usuários e desenvolvedores devem observar
Para titulares de fundos, a recomendação prática continua sendo a prudência: endereços que já divulgaram chaves públicas na cadeia são os mais vulneráveis no longo prazo. Desenvolvedores seguem avaliando caminhos de migração e ferramentas que facilitem a transição para assinaturas resistentes a computadores quânticos. Enquanto isso, prêmios como o da Project Eleven — equivalente a cerca de US$ 77.750 / R$ 390.000 no momento do anúncio — servem como termômetro público do avanço técnico e da urgência de preparar a infraestrutura cripto.
Conclusão
O ataque que resultou no prêmio de 1 Bitcoin não indica uma quebra imediata do Bitcoin, mas funciona como um lembrete de que a computação quântica deixa de ser puramente teórica quando demonstrações públicas aumentam em escala. Entre 24 de abril de 2026 e os próximos anos, a comunidade seguirá dividida entre avaliar risco e desenvolver soluções, enquanto pesquisadores e empresas acompanham de perto as reduções nas barreiras técnicas que tornam esses ataques cada vez mais plausíveis.

