O Bitcoin encerrou março na faixa de US$ 68.200, acumulando uma queda de 22,2% no primeiro trimestre de 2026. Esse desempenho amplia uma tendência iniciada no 4º trimestre de 2026, quando a criptomoeda já havia registrado uma retração de cerca de 23%. Além dos números nominais, o mercado ficou marcado por um sentimento negativo persistente, medido por indicadores como o índice de medo e ganância, que permaneceu em patamar de medo extremo durante boa parte do período.
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Por que o trimestre foi negativo
Vários eventos convergiram para pressionar o preço do Bitcoin. Do lado geopolítico, disputas territoriais e riscos de conflito influenciaram as expectativas de inflação global — destaque para a quase paralisação do fluxo pelo Estreito de Ormuz, que traz impactos diretos ao preço de energia e insumos. Em paralelo, discursos e ameaças de tarifas entre países aliados afetaram a confiança nos ativos de risco. Esses choques levam bancos centrais a considerar aumentos de taxas, uma dinâmica que normalmente reduz o apetite por ativos especulativos como o Bitcoin.
Tecnologia, segurança e narrativas institucionais
Discussões sobre Computação quântica voltaram a ganhar espaço após publicações técnicas relevantes, reacendendo dúvidas sobre a necessidade de atualizações na pilha de segurança das criptomoedas. Alguns observadores, incluindo desenvolvedores e estrategistas, atribuíram parte da fraqueza do mercado à percepção de que a comunidade não progrediu rápido o suficiente em mitigação desses riscos. Ao mesmo tempo, figuras do mercado tradicional, como Ray Dalio, enfatizaram que bancos centrais tendem a evitar a compra de Bitcoin por questões de privacidade e governança, favorecendo ativos como o ouro no portfólio institucional.
Fluxos institucionais e ETFs
Em termos de entradas e saídas, os ETFs ligados ao Bitcoin registraram entradas de aproximadamente US$ 1,32 bilhão em março, porém não foram suficientes para compensar as saídas dos dois meses anteriores; no trimestre, cerca de US$ 500 milhões deixaram esses fundos. Do lado das tesourarias corporativas, houve movimentos divergentes: a Strategy de Michael Saylor continuou comprando, adicionando cerca de 44 mil bitcoins, enquanto mineradoras como a MARA venderam cerca de 15 mil moedas.
Impacto nas tesourarias de Bitcoin
As companhias conhecidas como tesourarias de Bitcoin sofreram forte pressão nos preços das ações em 2026: a Strategy caiu em torno de 17% desde o início do ano; a Twenty One Capital recuou cerca de 26%; e a mineradora Marathon Digital Holdings (MARA) perdeu 10,7% no período. Essas empresas operam com modelos que usam dívida para aumentar compras de Bitcoin, o que amplia retornos em mercados de alta e, simultaneamente, aumenta vulnerabilidade em mercados de baixa.
Riscos do modelo alavancado
Analistas alertam que um bear market severo pode forçar vendas de posições por parte dessas tesourarias, criando um efeito cascata: a necessidade de honrar dívidas ou gerar caixa poderia levar a vendas massivas de bitcoins, pressionando ainda mais o preço. Michael Saylor, no entanto, afirmou que a Strategy possui alavancagem contida e reservas de caixa, garantindo que não pretende liquidar suas participações. Ele destacou que a relação líquida de alavancagem da empresa é menor que a de pares e que há disponibilidade de caixa para suportar a estratégia.
Cenário brasileiro
No Brasil, ações de tesourarias listadas também recuaram: a OranjeBTC caiu cerca de 31% no ano, enquanto o Méliuz registrou queda de 9% no mesmo período. O Méliuz divulgou um prejuízo de R$ 32,9 milhões no quarto trimestre de 2026, parcialmente associado à desvalorização do Bitcoin, o que ilustra como a exposição cripto pode impactar resultados operacionais locais.
Projeções dos analistas e o que observar adiante
Quanto às previsões, há grande dispersão. O estrategista Mike McGlone da Bloomberg chegou a citar um alvo pessimista de US$ 10.000, argumentando que o mercado precisa se limpar de projetos sem fundamento para recuperar força. O trader Peter Brandt identificou uma formação técnica de cunha ascendente que, segundo ele, pode resultar em nova queda abaixo de US$ 50.000. Já o analista Willy Woo projeta recuperação possivelmente só no 4º trimestre de 2026 ou no 2º trimestre de 2027, com um cenário extremo levando o preço a níveis próximos de US$ 16.000. Em meio a isso, investidores devem monitorar atentamente desdobramentos geopolíticos e as sinalizações do Fed e de outros bancos centrais sobre taxa de juros, fatores que tendem a definir se o Bitcoin encontrará um fundo ou seguirá pressionado.
