O presidente Lula tem colocado a pauta de segurança pública e combate ao crime organizado no centro das conversas diplomáticas com os Estados Unidos. Em negociações previstas para encontros bilaterais na Casa Branca, a delegação brasileira pretende pedir oficialmente maior cooperação para a identificação, investigação e captura de suspeitos que vivem em solo americano — entre eles o empresário Ricardo Magro, fundador e controlador do grupo Refit, alvo de operações da Polícia Federal e da Receita.
A estratégia do Palácio do Planalto combina pressão externa e iniciativas internas: busca-se reforçar investigações sobre movimentações financeiras transfronteiriças, ampliar ações contra lavagem de dinheiro e transformar uma operação policial em símbolo de combate a grandes devedores fiscais. Paralelamente, a missão brasileira encara negociações sobre o chamado tarifaço e outras pautas econômicas, com a participação de autoridades como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Por que Ricardo Magro virou foco da agenda bilateral
As autoridades brasileiras apontam que o grupo Refit, que administra a refinaria de Manguinhos, foi objeto de apurações que indicam supostas irregularidades fiscais e movimentações por meio de estruturas no exterior, incluindo registros em estados americanos considerados favoráveis a offshores, como Delaware. Segundo a investigação, há indícios de sonegação de tributos e impacto fiscal significativo — estimativas citadas no noticiário chegam a cifra elevada que motivou as ações da Polícia Federal.
Do ponto de vista do governo, transformar esse caso em uma demanda diplomática tem dois objetivos: obter apoio para localizar e, se possível, deter o empresário que reside em Miami, e demonstrar à opinião pública que o terceiro mandato do presidente está focado em atingir o topo das redes econômicas que, na avaliação do Planalto, colaboram com o crime organizado. A Refit e Magro negam veementemente qualquer irregularidade e falam em campanha difamatória por parte de concorrentes.
O que o Brasil pede aos Estados Unidos
No centro do pedido brasileiro está a solicitação de uma parceria mais efetiva nas áreas de inteligência financeira e execução criminal. O governo trabalha para obter mecanismos que facilitem a cooperação judiciária e policial — por exemplo, compartilhamento de dados bancários, informações patrimoniais e apoio logístico para medidas que resultem em prisões ou extradições quando cabíveis.
Além da dimensão operacional, há uma prioridade política: demonstrar resultados concretos na repressão a crimes econômicos de grande escala, vinculando medidas de investigação à narrativa de combate ao colarinho branco. A retomada desse tema também visa dar força a projetos legislativos em tramitação, como propostas de segurança pública e instrumentos para enfrentar facções e fraudes financeiras.
Instrumentos técnicos e legais em jogo
Para avançar, a equipe brasileira aposta na combinação entre ações administrativas (bloqueios e apreensões) e pedidos formais de cooperação judicial. Em paralelo, pretende-se usar relatórios de órgãos como a Receita Federal e extratos de operações financeiras para montar dossiês técnicos que sustentem qualquer pedido de prisão ou transferência de custódia. O uso de offshores e a movimentação por países terceiros estão no foco das análises financeiras.
Contexto político e acompanhamento ministerial
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi escalado para integrar a comitiva presidencial e contribuir nas conversas sobre lavagem de dinheiro e coordenação econômica. Sua presença também tem alcance doméstico: protelar a saída do ministério mantém no governo um interlocutor-chave para articular medidas fiscais e medidas de defesa comercial, como a disputa sobre tarifas impostas pelos EUA — o chamado tarifaço — que segue na agenda das negociações.
Internamente, a Presidência acredita que exibir ações concretas contra grandes devedores e operadores com suposto envolvimento em redes ilícitas ajuda a neutralizar críticas sobre leniência em relação ao crime e fortalece a plataforma de segurança do governo na campanha. A articulação entre ministérios, agências de inteligência e parceiros estrangeiros é descrita por auxiliares como central para fechar brechas usadas por organizações criminosas para movimentar recursos.
Elementos adicionais na pauta diplomática
Além do pedido de cooperação policial, a troca entre Brasília e Washington deve tocar temas como acesso a minerais estratégicos, participação brasileira em iniciativas multilaterais propostas pelos EUA e posturas regionais sobre Venezuela e Cuba. Essas frentes demonstram que a negociação bilateral combina interesses de segurança com prioridades comerciais e geopolíticas, ampliando o escopo da visita em análise.
Em nota pública, a Refit e Ricardo Magro afirmam que cumprem obrigações fiscais e negam qualquer relação com organizações criminosas, qualificando as acusações como parte de uma campanha para impedir que reduções de preços de combustíveis cheguem ao consumidor. O governo, por sua vez, segue preparando elementos técnicos e diplomáticos para buscar apoio na justiça internacional e em operações executivas.
