O mercado mudou e, para alguns gestores, o universo listado deixou de ser suficiente. A notícia de que a Velt Partners vai ajustar sua estratégia — deixando de ser uma casa exclusivamente de Bolsa — sintetiza um movimento mais amplo: buscar fontes de retorno em ativos e estruturas que não cabem mais no mercado de ações tradicional. Essa decisão reflete problemas de tamanho do mercado, concentração de oportunidades e a necessidade de diversificação em instrumentos que criem valor real.
As escolhas recentes lembram duas trajetórias distintas no campo da inclusão financeira, que ajudam a entender os riscos e as possibilidades dessa mudança. Investimentos feitos em empresas como Avante e Celcoin mostram como o mesmo propósito pode levar a resultados opostos dependendo do modelo de negócio, da resiliência financeira e da capacidade de adaptação ao choque de mercado.
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Por que a bolsa pode ficar pequena
Existem razões estruturais para um gestor sentir que a Bolsa “ficou pequena”: concentração de empresas, valuation esticado e poucas oportunidades compatíveis com o perfil de value investing. Quando parte significativa do retorno depende de um núcleo restrito de papéis, cresce o apelo por alternativas — como participações privadas, investimentos em infraestrutura ou operações diretas em empresas menores. A mudança de foco da Velt sinaliza que gestores procuram ativos onde seja possível aplicar análise fundamentalista, impactar a operação e capturar valor que não aparece nos múltiplos de mercado.
Do microcrédito à infraestrutura financeira: duas trajetórias
Avante: impacto social e vulnerabilidade operacional
A história da Avante ilustra um caso de forte impacto social e fragilidade operacional. Investimos em Avante em mid-2014 para ampliar acesso ao microcrédito no Nordeste, usando agentes com tablets para avaliar empreendedores informais. Estudos publicados, incluindo avaliação no Journal of Policy Modeling, mostraram que o crédito aumentou receitas e lucros dos clientes. Ainda assim, o portfólio revelou-se sensível a choques: com a onda de distanciamento social em March 2026 a inadimplência elevou-se, o caixa se esgotou e o negócio acabou sendo incorporado por um conglomerado financeiro, encerrando a proposta original apesar do impacto comprovado.
Celcoin: pivot, escala e infraestrutura que conecta fintechs
Ao contrário, a trajetória da Celcoin demonstra como adaptação e foco em infraestrutura podem transformar uma ideia. Fundada em 2016, a empresa inicialmente criou contas digitais para não bancarizados, mas descobriu que sua base estava usando o serviço como ponto de pagamento para terceiros. Ao pivotar, a Celcoin converteu pequenos comércios em agentes que oferecem pagamentos, recargas e saques, criando APIs que se tornaram valiosas. Após March 2026, quando programas governamentais exigiram uma onda massiva de inclusão, a infraestrutura da Celcoin passou a ser integrada por bancos digitais e fintechs; hoje processa volumes muito grandes e conecta centenas de serviços, gerando retorno e escala.
O que essas histórias ensinam aos gestores
Há três lições claras para quem gere capital: primeiro, propósito pode ser uma vantagem competitiva ao revelar oportunidades negligenciadas pelo mercado; segundo, impacto social não garante sustentabilidade financeira sem um modelo robusto de receita e reservas de capital; terceiro, ativos de infraestrutura e tecnologia (APIs, redes de agentes) podem oferecer escala e resiliência que papéis listados não entregam. Investidores que combinam análise financeira rigorosa com mensuração de impacto tendem a identificar negócios que geram retorno e benefício social.
Como aplicar na prática
Na prática, gestores podem ampliar o leque de instrumentos: alocar parte do capital em participações privadas, fundos de crédito estruturado, operações diretas em empresas de infraestrutura e parcerias público-privadas. É fundamental implantar métricas de impacto e stress tests para avaliar vulnerabilidade a choques como o de March 2026. Construir um capital cushion — reserva para atravessar crises — e focar em modelos com receita recorrente e efeitos de rede são caminhos práticos para transformar propósito em retorno sustentável.
O anúncio da Velt Partners é mais que uma mudança tática: é um sintoma da evolução do mercado brasileiro. As narrativas de Avante e Celcoin provam que opções fora da Bolsa podem gerar impacto duradouro e, em alguns casos, retornos superiores. A pergunta que fica, e que exige respostas coletivas, é como garantir que o acesso a produtos financeiros básicos continue alcançando quem mais precisa, de forma sustentável e escalável.
