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IPCA de fevereiro acelera; serviços e educação puxa inflação e complicam avaliação do Copom

O IPCA de fevereiro surpreendeu o mercado ao registrar alta de 0,70%, acima das expectativas, ao passo que a inflação acumulada em 12 meses avançou mais lentamente, ficando em 3,8% (ante 4,4%). Esses números mostram um quadro dual: por um lado, a trajetória de desinflação continua no agregado; por outro, componentes inerciais como serviços e alguns núcleos permanecem resistentes. Analistas alertam também para o efeito ainda não observado da crise no Oriente Médio, que pode pressionar preços de combustíveis caso os impactos sobre o preço do petróleo se propaguem.

O que os números dizem

O comportamento setorial foi decisivo para o resultado mensal. O grupo de Educação teve reajustes expressivos: variou 5,21% em fevereiro, após apenas 0,02% em janeiro, com itens como ensino médio (+8,19%), ensino fundamental (+8,11%), pré-escola (+7,48%) e creche (+6,28%). O setor de Transportes também ganhou destaque, com alta de 0,74% no mês, influenciado por um avanço de 11,4% nas passagens aéreas em fevereiro, que acumula alta de 24,61% em 12 meses. Já a categoria Alimentação e bebidas apresentou leve alta mensal, com destaque para itens como feijão, ovos, aves e batata-inglesa, apontados por pesquisadores como surpresa altista.

Análise de núcleos

As medidas de núcleo mostram sinais de maior rigidez: a inflação subjacente de serviços, calculada pela média móvel, subiu para 5,4% (de 4,7%), enquanto o núcleo do setor industrial manteve-se em cerca de 3,4%. A média das medidas de inflação subjacente passou para 4,1% (de 4,0%), sugerindo que, embora o IPCA agregado continue em trajetória declinante, o comportamento dos núcleos reforça um quadro mais resistente do que o esperado por alguns analistas.

Interpretações dos economistas e fatores domésticos

Especialistas destacaram leituras distintas: Pablo Spyer (Ancord) aponta que a inflação ligada à atividade doméstica ainda mostra resistência, enquanto Luciana Rabelo (Itaú) chama atenção para reajustes acima do previsto em vestuário e cuidados pessoais. Leonardo Costa (ASA) ressaltou a volta ao campo positivo de Habitação (+0,30%), por conta de tarifas de água e esgoto e leve ajuste na energia residencial, além de indicar que a apreciação cambial recente ainda não se traduziu em queda de preços na ponta. Para muitos, há volatilidade no núcleo de bens, que não acompanhou totalmente a variação cambial e permanece pressionado.

Perspectivas de desinflação

Apesar das surpresas, alguns analistas continuam a ver um processo geral de desinflação. Gustavo Sung (Suno Research) aponta fatores que sustentam essa leitura: valorização cambial recente, estabilidade prévia das commodities e recuo recente em alguns preços de alimentos, além da desaceleração dos custos de produção agrícola e industrial. Marianna Costa (Mirae Asset) também mantém a visão de desaceleração no acumulado de 12 meses, embora ressalte que a dinâmica de serviços pode determinar a velocidade do ajuste nos próximos meses.

Riscos externos e impacto na política monetária

Um ponto crítico na avaliação do cenário é o conflito no Oriente Médio e os recentes ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. O aumento do preço do petróleo ainda não foi totalmente transmitido aos preços domésticos, mas a defasagem entre os valores praticados no Brasil e no exterior eleva a pressão por reajustes, mesmo com a Petrobras adotando uma política distinta. Economistas alertam que a principal incerteza é a duração do conflito: sua permanência pode reduzir oferta global de petróleo e retardar o processo de desinflação.

Consequências para o Copom

Os números e os riscos externos deixam o Banco Central em posição de maior cautela na véspera do encontro do Copom, marcado para 17 e 18 de março. Expectativas do mercado variam: a Suno projeta início de cortes modestos (corte de 0,25 p.p., com espaço técnico para 0,50 p.p.) e Selic em 12,5% ao fim de 2026; Itaú e Daycoval trabalham com projeções de inflação de cerca de 3,8% ao fim do ano; o ASA já indica revisão para cima em relação à meta anterior de 3,6%. A maior parte dos agentes passa a apostar em início de flexibilização mais gradual, com cortes iniciais em torno de 0,25 p.p., embora alguns cenários base ainda considerem redução inicial de 0,50 p.p. caso os riscos externos se materializem de forma limitada.

Em síntese, o IPCA de fevereiro reforça uma conclusão dupla: a trajetória agregada aponta para continuidade do processo de desinflação, mas núcleos e serviços exigem atenção, deixando o Copom inclinado à prudência. A evolução do conflito no Oriente Médio e a transmissão do preço do petróleo ao mercado doméstico serão variáveis centrais para a política monetária nos próximos meses.

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