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IA com carteira própria: o que muda para pagamentos e infraestrutura onchain

Em entrevista ao Livecoins, Guilherme Bettanin, líder da Base no Brasil, traçou um panorama sobre a entrada de agentes de inteligência artificial no universo das transações em criptomoedas. Segundo Bettanin, estamos diante de uma mudança de paradigma em que assistentes digitais deixam de ser meros geradores de recomendações e passam a operar como atores econômicos independentes, capazes de abrir carteiras, negociar serviços e efetuar pagamentos por conta própria.

O ponto focal da discussão foi o padrão x402, fruto da colaboração entre a Base e a Cloudflare, que permite que agentes de IA paguem por APIs e dados de forma autônoma. Para entender as consequências práticas dessa evolução é preciso analisar tanto a camada técnica quanto as oportunidades de mercado que emergem quando a internet se torna não só programável, mas também economicamente programável.

O que o x402 representa e por que importa

O x402 foi descrito por Bettanin como o elemento que padroniza a transferência de valor na mesma medida em que o HTTP padronizou a troca de informações. Ao viabilizar que agentes de IA detenham e movimentem criptoativos para pagar serviços, o padrão reduz a fricção criada por processos de pagamento pensados para humanos. Essa mudança abre espaço para novos modelos de negócios centrados em exchanges de APIs e microtransações contínuas, onde agentes se comunicam, negociam preços e fecham contratos automaticamente.

Impacto prático para desenvolvedores e empresas

Na prática, desenvolvedores e empresas passam a projetar serviços pensando em consumidores não humanos. Isso implica adaptar modelos de cobrança, criar interfaces de descoberta de serviços para máquinas e garantir mecanismos de segurança para carteiras autônomas. Bettanin ressalta que a transição pode ser profunda: conforme o CEO da Coinbase, Brian Armstrong, prevê, em breve pode haver mais agentes de IA do que humanos realizando transações. O x402 é a infraestrutura que facilita esse cenário.

Escalabilidade: como a Base lida com microtransações massivas

A Base opera como uma solução Layer 2 para a Ethereum, processando transações fora da cadeia principal e reduzindo a carga sobre a rede base. Ao agrupar múltiplas operações em um único registro onchain, a Base aumenta a capacidade efetiva de processamento de transações por segundo, diminuindo custos e latência. Esse desenho é essencial quando se imagina um fluxo contínuo de microtransações 24/7 originadas por agentes automatizados.

Medidas recentes e limites operacionais

Para enfrentar picos de demanda, a equipe da Base tem atualizado parâmetros de rede; por exemplo, em outubro de 2026 houve o anúncio de que o limite de gás da Base Chain seria dobrado, uma alteração com impacto direto em throughput e custos. Apesar dessas otimizações, preserva-se o objetivo de manter taxas próximas de zero em cenários de alto congestionamento, permitindo experiências fluidas para serviços pagos por agentes.

Governança, sequenciador e a jornada rumo à descentralização

Uma das críticas frequentes é que a Base ainda opera com um único sequenciador controlado de forma centralizada pela Coinbase. Bettanin respondeu que a estratégia prevê uma descentralização progressiva como parte do roadmap. Em abril de 2026 a Base anunciou ter atingido o estágio 1 de descentralização, um marco que, segundo ele, vai sendo ampliado ao longo do tempo para reduzir riscos associados a pontos únicos de controle e para aumentar a resiliência da infraestrutura.

Para Bettanin, uma governança neutra é crucial para evitar fragmentação e fomentar colaboração entre participantes do ecossistema, um requisito para escalar até o objetivo declarado de construir uma economia global onchain com participação ampla do mercado.

Novos negócios e a adoção no Brasil

No plano comercial, Bettanin prevê a emergência de marketplaces de APIs e cadeias de valor em que agentes autônomos serão grandes consumidores. Isso exige que empresas repensem como capturam valor e criem produtos pensados para consumo por máquinas. Há uma mudança acelerada: há apenas dois anos muitos modelos de IA eram limitados a gerar recomendações; hoje, agentes com capacidade financeira podem descobrir serviços, negociar, pagar por dados e gerenciar tesouraria em tempo real.

Para fomentar essa transição localmente, a Base inaugurou o hub Base Node em Florianópolis, um espaço para apoiar desenvolvedores e startups. Já são mais de 50 empresas brasileiras construindo na Base. Um caso citado por Bettanin é o da Felix, um agente de IA que, em cerca de 60 dias, gerou aproximadamente US$ 130 mil atuando como empreendedor digital e gerindo um marketplace com tesouraria em cripto.

Conclui-se que a convergência entre IA e infraestrutura onchain abre oportunidades e riscos: a escalabilidade técnica, a governança e a criatividade dos negócios serão determinantes para que agentes autônomos se tornem parte integrante da economia digital, exigindo colaboração entre provedores de infraestrutura, desenvolvedores e reguladores para viabilizar esse novo ecossistema.

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