Uma iniciativa internacional para gerir e reconstruir Gaza coordenada pelo Conselho de Paz ligado a Donald Trump enfrenta um bloqueio por falta de recursos. Embora líderes do Golfo e outros tenham anunciado compromissos que totalizariam cerca de US$17 bilhões, apenas uma fração desse montante entrou nas contas até agora, segundo fontes citadas por agências de notícias.
O resultado é que o comitê técnico desenhado para administrar o território — o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG) — não conseguiu implementar sequer as etapas iniciais exigidas para a transição.
Index du contenu:
Promessas vs. desembolsos: o hiato financeiro
De acordo com pessoas com conhecimento direto das negociações, dez países haviam prometido fundos na conferência em Washington organizada por Trump, realizada dias antes de uma escalada regional provocada por ataques contra o Irã. Desses doadores, apenas três — Emirados Árabes Unidos, Marrocos e os EUA — transferiram recursos. Fontes consultadas estimam que o total recebido é inferior a US$1 bilhão, muito aquém do que seria necessário para começar a operação do NCAG ou para projetos de reconstrução.
Impasses operacionais e de segurança
Além da escassez de dinheiro, há obstáculos de segurança que impedem o acesso do NCAG a Gaza. Fontes dizem que a equipe não teve condições de entrar no enclave devido a riscos no terreno e à ausência de financiamento estável. Mesmo após um cessar-fogo temporário, ataques continuaram a ocorrer, com mortes tanto entre civis de Gaza quanto entre militares, mantendo o clima de insegurança que dificulta qualquer operação administrativa ou humanitária de grande escala.
Posição do Hamas e do comitê
O movimento Hamas tem afirmado que está disposto a transferir autoridades administrativas ao NCAG, liderado por Ali Shaath, ex-vice-ministro da Autoridade Palestiniana. O plano previa que o comitê assumisse ministérios e a força policial local, mas a ausência de recursos e a situação de confinamento — Shaath e sua equipe de 14 membros estão em um hotel no Cairo sob vigilância — impedem a implementação. Fontes diplomáticas relataram que agentes dos EUA e do Egito acompanham de perto esse processo.
Reações oficiais e narrativas concorrentes
O Conselho de Paz divulgou uma declaração nas redes sociais negando problemas de financiamento, afirmando ser uma organização enxuta que mobiliza capital conforme necessário e que pedidos de recursos foram atendidos “imediata e integralmente”. Essa negação contrasta com relatos de interlocutores palestinos e diplomáticos que disseram ter sido informados pelo enviado do conselho, Nickolay Mladenov, de que “não há dinheiro disponível no momento” para permitir a entrada do NCAG em Gaza.
Impacto humanitário e valores estimados
O custo estimado para reconstruir Gaza é enorme: projeções internacionais colocam o valor em torno de US$70 bilhões, refletindo destruição em larga escala de infraestrutura e moradias. A campanha militar que seguiu os ataques iniciais do Hamas a Israel resultou em números trágicos — segundo registros israelenses, os ataques de 7 de outubro de 2026 mataram cerca de 1.200 pessoas, enquanto autoridades de saúde de Gaza relatam que a campanha subsequente causou mais de 72.000 mortes palestinas, em sua maioria civis, além de deslocamento e escassez de alimentos.
Riscos de uma nova escalada
Enquanto o impasse sobre desarmamento e retirada de tropas se mantém, há receio entre diplomatas de que Israel busque pretextos para retomar ofensivas em grande escala caso não obtenha garantias concretas sobre a desmilitarização do Hamas. Autoridades militares israelenses já afirmaram estar preparadas para voltar rapidamente à guerra em larga escala, o que torna ainda mais urgente uma solução que combine medidas de segurança, garantias políticas e, sobretudo, desembolsos financeiros suficientes para viabilizar a administração e a reconstrução de Gaza.
Considerações finais
A situação revela uma combinação de promessas diplomáticas ambiciosas e realidades práticas duras: sem recursos, sem segurança consolidada e sem confiança mútua entre as partes, até mesmo planos com apoio de governos poderosos ficam estagnados. O sucesso do projeto depende agora de um aumento significativo de aportes financeiros, de garantias de segurança e de acordos políticos que permitam ao NCAG operar efetivamente em Gaza.
