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1 outubro 2026

Corruptelas em contratos de reformas nas escolas do Rio são investigadas

Operação Escola de Papel revela um esquema de desvios bilionário nas reformas de escolas do Rio, com contratos suspeitos e ex-secretários na mira.

Corruptelas em contratos de reformas nas escolas do Rio são investigadas

A iniciativa conhecida como Operação Escola de Papel trouxe à tona um complexo de irregularidades que envolve mais de R$ 1,6 bilhão em contratos de obras e serviços da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc). As investigações, conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, resultaram na expedição de 19 mandados de busca e apreensão nas áreas da capital, Baixada Fluminense e Região dos Lagos, alcançando figuras como a ex-secretária Roberta Barreto, seu genro Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, o ex-subsecretário David de Andrade Marinho Filho e o empresário Fabio Martins Pereira.

Escala dos indícios de fraude nas escolas estaduais

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governador interino, Ricardo Couto, estimou que até R$ 1,6 bilhão em contratos de obras e serviços da Seeduc apresentem sinais de fraude e até mesmo de formação de cartel. Dentre os 1.241 estabelecimentos da rede, cerca de 95% teriam realizado contratações de maneira irregular, segundo levantamento interno. Em Realengo, por exemplo, a escola cívico-militar que deveria abrir suas portas para mil alunos permanece abandonada, com materiais de construção espalhados e nenhum operário no local, apesar de R$ 14,3 milhões já terem sido liberados.

As auditorias concluídas revelaram 30 investigações que apontam para aditivos ilegais, licitações manipuladas e até mesmo cartéis entre empresas. Um caso ilustrativo é a reforma do Colégio Estadual Nilo Peçanha, em Niterói, onde a empresa vencedora recebeu R$ 4,5 milhões com descontos progressivos (4%, 3% e 2%) que sugerem conluio, além de apresentar atestados falsos e incapacidade financeira comprovada.

Os mecanismos que viabilizaram o desvio

Desde 2022, a resolução que fixava teto de R$ 880 para despesas de emergência – criada pelo então secretário Alexandre Valle – foi ignorada sistematicamente. As unidades passaram a receber recursos extrateto sob a justificativa de compensar cortes durante a pandemia. As Associações de Apoio às Escolas (AAEs), organizações sem fins lucrativos compostas por diretores e pais, foram utilizadas como ponte para repassar os recursos às empreiteiras, muitas vezes sem a devida competitividade.

Pressões políticas sobre as diretorias regionais também foram documentadas. Um diretor entrevistado relatou ter recebido um pendrive com a lista de empresas a serem indicadas, indicando coerção direta. A recente troca de diretores promovida pela secretária Luciana Calaça, que restringiu o teto de gasto direto das escolas a R$ 130.984,20 demonstra esforço institucional para conter a prática, embora ainda existam indícios de influência de políticos como Rodrigo Bacellar e Thiago Raimundo nos processos.

Desdobramentos da Operação Escola de Papel

A operação identificou um fluxo de dinheiro que passava da Seeduc para as AAEs e então para as empresas contratadas. Em janeiro de 2026, agentes apreenderam R$ 500 mil em espécie, transportados em sacola plástica dentro de uma caminhonete de segurança. O administrador da empresa responsável por várias obras afirmou que, de cerca de R$ 6 milhões recebidos para quinze obras, apenas R$ 2 milhões foram efetivamente aplicados nos serviços, o restante sendo desviado para um intermediário que controlava os pagamentos.

Os desembolsos analisados variaram entre R$ 8,93 milhões em saques em espécie e contratos que somaram até R$ 19,8 milhões para uma única empresa em 2025. O Ministério Público bloqueou bens dos investigados no valor aproximado de R$ 19 milhões e enviou todas as auditorias com indícios de crime ao Gabinete do Procurador-Geral de Justiça para providências criminais.

Em resposta, a Seeduc divulgou que está revisando todos os contratos e reforçando limites de gasto, estabelecendo que obras acima de R$ 130 mil deverão ser executadas pela Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop-RJ). A secretaria afirmou que continuará cooperando com as investigações, garantindo acesso a documentos e informações.