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Como os ataques ao Irã estão comprimindo mercados e elevando custos de energia

O conflito envolvendo ataques dirigidos ao Irã e respostas militares por parte dos EUA e de Israel vem abrindo falhas na cadeia de oferta global de energia. Danos a terminais, refinarias e oleodutos no Golfo Pérsico têm empurrado os preços do petróleo para níveis que não eram vistos desde períodos de tensão histórica, elevando custos para consumidores e empresas e criando um quadro no qual a recuperação econômica fica seriamente comprometida.

Especialistas alertam que a destruição de infraestrutura transforma um choque temporário em um problema de longo prazo. Economistas destacam que, além do impacto imediato nos preços, há efeitos secundários sobre fertilizantes, semicondutores e transporte marítimo que podem se propagar por meses ou anos, caso os reparos e a normalização das rotas não avancem rapidamente.

Infraestrutura atingida e impacto direto nos mercados

Um episódio crítico foi o ataque ao terminal de gás natural Ras Laffan, no Catar, que produz cerca de 20% do GNL mundial. O ataque de 18 de março reduziu 17% da capacidade de exportação do Catar e, segundo a estatal QatarEnergy, os reparos podem levar até cinco anos. Pouco antes, em 28 de fevereiro, a resposta iraniana praticamente fechou o Estreito de Ormuz, rota por onde passa um quinto do petróleo global, aumento que levou exportadores do Golfo a cortar produção por não haver alternativa segura de escoamento.

Choque de oferta e elevação de preços

Com a perda de até 20 milhões de barris por dia, a Agência Internacional de Energia classificou a situação como a maior interrupção de oferta da história do mercado petrolífero. O preço do barril Brent subiu para US$ 105,32, enquanto o petróleo de referência dos EUA alcançou US$ 99,64. Economistas lembram que choques desse porte historicamente precederam desacelerações ou recessões, e aumentam a probabilidade de estagflação, que é um quadro de inflação alta combinada com crescimento baixo.

Setores sensíveis: fertilizantes, hélio e cadeias agrícolas

O impacto não se limita ao combustível. O Golfo responde por cerca de um terço das exportações mundiais de ureia e um quarto da amônia, produtos que dependem de gás natural barato. Além disso, até 40% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados trafegam pelo Estreito de Ormuz. Desde o início das hostilidades, o preço da ureia subiu cerca de 50% e o da amônia 20%, pressionando custo de insumos agrícolas em países importadores.

Consequências para produtores e preços de alimentos

Países como o Brasil, que importa aproximadamente 85% de seus fertilizantes, e o Egito, que depende do gás para produção, são particularmente vulneráveis. A alta do custo dos fertilizantes tende a reduzir o uso nas lavouras, diminuir safras e, com isso, elevar preços ao consumidor, afetando sobretudo famílias em nações mais pobres.

Racionamento, indústria e efeitos regionais

A escassez de energia e gás também gerou medidas práticas: racionamento público, limites no uso de ar-condicionado e priorização de suprimentos para residências. Países asiáticos, que importam mais de 80% do petróleo e do GNL que passam por Ormuz, estão entre os mais expostos. Na Índia, o governo tem priorizado lares sobre empresas na distribuição de GLP, e restaurantes vêm reduzindo horários por falta de combustível.

Além disso, a interrupção do fornecimento do hélio — subproduto do gás natural — ameaça cadeias industriais de semicondutores, lançamentos espaciais e exames médicos, já que o Catar concentra cerca de um terço da oferta global.

Como ficam as grandes economias e a perspectiva macro

Os EUA exibem alguma resiliência por serem exportadores líquidos de petróleo e por terem maiores volumes de gás doméstico, mas consumidores norte-americanos sentem a pressão: o preço médio da gasolina subiu para quase US$ 4 por galão, ante US$ 2,98 um mês antes, segundo a AAA. Ao mesmo tempo, dados recentes mostraram crescimento anualizado de apenas 0,7% entre outubro e dezembro, com cortes inesperados de vagas e criação de postos de trabalho em ritmo muito fraco em 2026.

Especialistas como Christopher Knittel, Carmen Reinhart e Gita Gopinath alertam para um cenário mais sombrio: risco maior de inflação persistente, crescimento desacelerado e perda de dinamismo global. Gopinath estima que o crescimento projetado de 3,3% antes do conflito poderia recuar entre 0,3 e 0,4 ponto percentual se o petróleo mantiver média de US$ 85 por barril em 2026.

Perspectiva de recuperação

Analistas do setor e autoridades afirmam que a recuperação será lenta, pois muitos danos exigem reparos longos em instalações de GNL, refinarias e navios. Como resumem consultorias e órgãos internacionais, não há ganhos econômicos significativos no prolongamento do conflito — resta saber por quanto tempo as hostilidades persistirão e quanta destruição adicional virá.

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