Um levantamento independente mapeou a configuração do mercado P2P de bitcoin e outras criptomoedas no Brasil, revelando tanto a escala das ofertas quanto fragilidades operacionais. O estudo identificou 1.641 anúncios ativos em nove plataformas e estimou uma capacidade de negociação anunciada de US$ 2,22 trilhões. Esses números ajudam a compreender por que decisões regulatórias e incidentes de segurança têm impacto imediato sobre usuários e infraestrutura.
Juntas, essas informações descrevem um ecossistema que mistura eficiência — impulsionada por meios de pagamento instantâneos — e riscos associados à concentração de liquidez e ao uso de intermediários.
A seguir, detalho os principais achados, as implicações da adoção do Pix e as consequências da nova exigência de licenciamento para Prestadores de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs).
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Principais dados do mercado P2P
O relatório aponta que poucas plataformas concentram a maioria das ofertas: a Binance responde por 45,1% das listagens, enquanto a Paxful e a Noones detêm 19,1% e 14,3% respectivamente. No total, as três maiores plataformas somam cerca de 78,5% da atividade nacional. Esse nível de concentração define quem dita preços e regras de acesso para milhões de usuários.
Preferência por stablecoins e motivos econômicos
Entre os pares de negociação, o USDT lidera com 46,2% das ofertas, superando o bitcoin quando o objetivo é transferência de valor ou proteção do poder de compra. Para muitos investidores locais, manter paridade com o dólar representa uma estratégia prática contra volatilidade e inflação.
O papel do Pix e as vulnerabilidades reveladas
O Pix aparece em cerca de 80% dos anúncios monitorados, refletindo a preferência pelo pagamento instantâneo e pela liquidação imediata entre pares. Essa característica torna o mercado P2P competitivo frente às exchanges tradicionais, mas também cria um ponto de atenção: a cadeia de provedores que suportam o sistema contém pontos únicos de falha.
Incidente envolvendo chaves Pix e impacto na confiança
O Banco Central comunicou que foram expostas 5.290 chaves Pix de clientes do Agibank, com consulta a esses dados ocorrendo entre 26 de dezembro de 2026 e 30 de janeiro de 2026. Embora o vazamento tenha atingido principalmente dados cadastrais — sem expor saldos ou senhas — a divulgação amplia o risco de engenharia social. Autoridades reforçaram que as notificações aos clientes ocorreriam somente por canais oficiais, como aplicativo e internet banking, para reduzir golpes de phishing.
Complementando esse episódio, houve divulgação de que credenciais e certificados digitais de um prestador de serviço foram comprometidos, permitindo a terceiros acessar pontos de integração com o Pix. A situação obrigou equipes de segurança a revogar chaves herdadas e revisar práticas de armazenamento de segredos industriais.
Regulação e efeitos sobre participantes do mercado
Em fevereiro de 2026 entraram em vigor novas regras de licenciamento para VASPs, exigindo capital mínimo, segregação de ativos e processos robustos de KYC. Essas medidas elevam o patamar de conformidade: grandes plataformas com estruturas globais de compliance têm maior capacidade de absorver os custos, enquanto players menores e serviços sem presença local enfrentam risco de saída.
Na prática, a legislação pressiona o mercado a escolher entre adaptar-se ou encerrar operações no Brasil. O resultado esperado é uma maior formalização, mas também possível redução de oferta e diversidade entre provedores P2P, com consequências sobre liquidez e competitividade.
O balanço entre eficiência e soberania financeira
O cenário evidencia um trade-off: a combinação de Pix e P2P gera rapidez e praticidade, porém reforça a dependência de terceiros para a custódia de dados e integrações. Para defensores da autocustódia, incidentes como o vazamento reforçam a importância de modelos que permitam ao usuário controlar chaves privadas. Já para reguladores, a prioridade é reduzir risco sistêmico e garantir rastreabilidade das operações com stablecoins, frequentemente tratadas como operações de câmbio.
Usuários, provedores e autoridades terão de equilibrar inovação, segurança e responsabilidade para que o ecossistema amadureça de forma resiliente.
