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Como Franklin Templeton redesenhou a estratégia de crédito no Brasil

A gestora Franklin Templeton, que administra cerca de US$ 1,7 trilhão em ativos, promoveu uma revisão significativa da sua política de crédito no Brasil diante dos defaults das empresas Americanas e Light. Esses episódios deixaram claro que confiar apenas nos balanços auditados pode ser arriscado em contextos de baixa transparência para credores. Como consequência, a casa mudou parâmetros de risco, elevou exigências de governança e alterou a composição de seus portfólios locais para reduzir a probabilidade de perdas similares.

A adaptação não foi apenas numérica: houve um movimento para incluir análises mais subjetivas e investigação sobre as estruturas de controle das empresas. A equipe local propôs à matriz práticas que consideram o ambiente brasileiro específico, como o histórico de divulgação contábil e as dificuldades de recuperação em processos de insolvência. Em termos práticos, isso se traduziu em limites mais rígidos por emissor e por rating e em medidas para melhorar recursos disponíveis em eventuais recuperações.

Mudanças nos limites de exposição

Para mitigar concentração de risco, a gestora reduziu os tetos de participação por classificação de crédito: companhias com rating triple A passaram a representar uma fatia menor dos fundos, enquanto emissores com rating A têm limite ainda mais baixo. Essas decisões buscam evitar que a falha de um único emissor comprometa a performance de carteiras amplas. Além disso, o tratamento dado a grandes instituições financeiras foi diferenciado, reconhecendo a supervisão do Banco Central como um fator de menor risco relativo.

Aprofundamento da avaliação qualitativa

Análise dos controladores e governança

Um dos pilares da nova abordagem é a inclusão de checagens sobre os controladores das companhias financiadas, trazendo ao processo de crédito elementos como histórico dos sócios, estruturas de tomada de decisão e sinais de conflito de interesse. Essa camada extra de diligência busca complementar os modelos quantitativos tradicionais e reduzir a dependência exclusiva dos números contábeis. Em outras palavras, a gestora passou a avaliar não só o que os balanços mostram, mas quem está por trás das decisões financeiras.

Instrumentos e cláusulas contratuais

No âmbito contratual, a gestora começou a exigir mecanismos que facilitem a recuperação em cenário adverso, como reservas específicas para custear despesas jurídicas de processos de recuperação. A proposta adota conceitos conhecidos no mercado financeiro, como contas-reserva e cláusulas que melhoram a posição dos credores em eventos de insolvência, e dialoga com práticas já usadas em outros ativos estruturados.

Recomposição de carteiras e diálogo regulatório

Na prática, as carteiras brasileiras da gestora foram reequilibradas: houve aumento substancial da participação de letras financeiras nas carteiras, passando de uma exposição modesta para um percentual bem maior, em busca de instrumentos percebidos como com perfil de risco diferente. Paralelamente, a empresa passou a participar de iniciativas setoriais junto à Amec para pleitear melhorias regulatórias, como maior acesso dos fundos ao SCR do Banco Central e maior transparência na documentação de crédito, medidas consideradas essenciais para facilitar recuperações e reduzir assimetria de informação.

Em síntese, a mudança promovida pela Franklin Templeton demonstra que grandes gestores podem permanecer no mercado local, mas com regras internas mais restritivas e procedimentos complementares que privilegiam a análise qualitativa. O objetivo é preservar retornos para os cotistas sem abrir mão da governança e da previsibilidade nas recuperações de crédito — um ajuste que combina limites numéricos, aprofundamento de diligência e esforço por melhoras regulatórias.

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