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Como a guerra e o petróleo pressionaram os fundos multimercado

O ambiente que vinha favorecendo fluxo e ganhos nos investimentos sofreu uma guinada brusca quando fatores externos se intensificaram. Em uma amostra de 243 veículos, a consultoria Outliers Advisory constatou que cerca de 80% dos fundos multimercado registraram resultados negativos em março, com perda média de 1,7%. Esses números mostram como choques geopolíticos podem rapidamente reduzir a eficácia de estratégias consideradas robustas.

Para contextualizar, os gestores viram combinações de eventos — uma escalada da guerra internacional e a recuperação inesperada do preço do petróleo — que alteraram correlações e apertaram a liquidez em vários mercados.

Muitos instrumentos considerados blindagens deixaram de proteger as carteiras, expondo fragilidades nas estruturas de hedge e na gestão de risco.

Como ocorreu o choque

A explicação técnica envolve movimentos simultâneos em múltiplos preços e taxas. A valorização do petróleo reverteu uma tendência de queda e provocou nervosismo sobre inflação futura, o que abriu as curvas de juros em diferentes jurisdições. Aqui entra o papel do hedge, que é um instrumento usado para reduzir exposição: quando correlações mudam bruscamente, o hedge pode não responder como o esperado. Samuel Ponsoni, fundador da Outliers Advisory, identifica a guerra como gatilho principal dessa mudança de paradigma.

No plano doméstico, essa pressão externa se somou a fatores locais e táticos: o dólar se valorizou, o ouro recuou enquanto gestores vendiam ativos para recompor caixa, e instrumentos do Tesouro Nacional foram revendidos para restaurar liquidez. O órgão precisou recomprar títulos pré-fixados e atrelados à inflação, manobra que visa estabilizar preços quando não há referência clara no mercado.

Impacto nos resultados e números relevantes

O levantamento com 243 fundos mostra que, entre os participantes, 44 apresentaram perdas superiores a 3% e alguns fundos registraram desvalorizações acima de 10%. No acumulado de 2026, o retorno médio dos fundos multimercado ficou em aproximadamente 1,3%, número que está bem abaixo do desempenho do CDI em muitos casos: apenas 24% dos fundos superaram esse índice no período. Em 12 meses, a média de rendimento foi de 15%, ligeiramente superior ao CDI de 14,75%, com metade dos fundos conseguindo bater essa referência.

Instrumentos que falharam

Algumas proteções que habitualmente funcionam em cenários de estresse não responderam por causa da velocidade e da natureza simultânea dos choques. Derivativos e posições em commodities que deveriam compensar quedas em renda variável acabaram correlacionando-se negativamente ao invés de servir como contrapeso. Em resumo, a transmissão de choque foi mais ampla do que o modelo de risco de muitos fundos previa.

Reações dos gestores

Segundo relatos do mercado, inclusive de analistas como Eduardo Rosman do BTG Pactual, gestores macro e hedge reduziram exposição em busca de clareza. As medidas variaram entre aumentar liquidez, cortar posições mais arriscadas e recalibrar limites de perda. Há também preocupação com fatores locais, como uma possível greve de caminhoneiros e uma correção adicional no setor de tecnologia, que continuam a influenciar decisões.

O que isso significa para investidores

Para quem acompanha fundos multimercado, o episódio reforça a lição de que diversificação passa por considerar cenários extremos e que o histórico recente de baixíssima volatilidade não garante proteção. Investidores precisam avaliar a consistência das estratégias de risco, a sensibilidade a choques de commodities e a capacidade dos gestores de agir rapidamente em mercados ilíquidos. No curto prazo, a prioridade tem sido preservação de capital e reorganização de alocação diante da incerteza.

Em síntese, a combinação entre conflito internacional e reprecificação do petróleo derrubou correlações e expôs limites de proteção dos fundos multimercado. Embora alguns resultados de 12 meses ainda sejam positivos em relação ao CDI, a leitura prudente do mercado exige atenção a mudanças rápidas e à eficácia real das estratégias de hedge.

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