A presença da Franklin Templeton, com cerca de US$ 1,7 trilhão sob gestão global, passou por uma reconfiguração na estratégia de crédito no Brasil após perdas relevantes em papéis como Americanas e Light. Esses eventos mostraram, segundo a equipe local, falhas na confiabilidade dos números públicos e na transparência de certas classes de credores. A consequência foi um pacote de medidas que combina cortes nos limites por emissor, ajustes por rating e uma avaliação mais profunda dos controladores das empresas emissoras.
Para o portfólio manager de crédito no país, Adriano Casarotto, ficou evidente que não se pode mais basear decisões apenas em planilhas e laudos auditados: há um componente de opacidade que aumenta o risco de perdas. Além disso, os detentores de debêntures enfrentaram dificuldades práticas para recuperar créditos em reestruturações. Esse cenário levou a casa a desenhar uma abordagem mais conservadora, com regras específicas aplicadas apenas no Brasil e sugeridas pela equipe local à matriz.
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Novos limites por emissor e por rating
Entre as medidas quantitativas, a gestora passou a impor um teto claro: emissores com classificação triple A podem responder, no máximo, por 1,5% do portfólio de crédito. Antes, a exposição era calculada com base no tamanho da dívida e nas características da emissão, o que em alguns casos permitia participações próximas a 3%. Para papéis com rating A, o limite caiu para 0,5%, e ativos a partir de triple B foram deslocados basicamente para carteiras com apetite por maior risco. A ideia central foi reduzir a concentração para mitigar surpresas decorrentes de dados públicos incompletos.
Avaliação qualitativa e exceções regulamentares
Além dos cortes numéricos, a equipe implementou uma revisão qualitativa dos emissores que, segundo Casarotto, chega a examinar o CPF do controlador quando necessário. Esse nível de investigação busca identificar riscos ligados a estruturas complexas de controle ou a operações conduzidas por fundos e múltiplos CNPJ. A política brasileira tornou-se, curiosamente, um piloto: o país é o único mercado onde a Templeton aplica essas regras, após sugestão da equipe local. No Brasil, a gestora administra cerca de R$ 12 bilhões em crédito e levou um ano e meio, até meados de 2026, para ajustar as carteiras.
Impacto nas carteiras e mudança de instrumentos
Na prática, essa transformação alterou a composição dos papéis: a participação de letras financeiras no portfólio saltou de cerca de 15% para aproximadamente 50% durante o processo de realocação. A justificativa foi pragmática — perdas inesperadas geram um stress que custa mais do que eventualmente teria rendido um ganho adicional. Casarotto sintetiza: perder um dólar provoca efeitos reputacionais e de confiança que superam ganhos pontuais, sobretudo entre investidores institucionais — daí a opção por uma postura mais conservadora.
Propostas regulatórias: acesso ao SCR
No campo institucional, a gestora atua junto à Amec para propor ajustes que facilitem a avaliação de risco. Uma sugestão chave é permitir que fundos tenham acesso ao SCR, o sistema de informações de crédito do Banco Central, atualmente restrito a instituições bancárias. O SCR mostra o saldo total de empréstimos de uma empresa e, na visão dos gestores, seria uma ferramenta valiosa para mensurar exposição e risco de crédito com maior precisão.
Transparência das ofertas e conta-reserva para debêntures
Outra frente de propostas mira a documentação das ofertas de crédito: exigir clareza sobre posição na estrutura de capital e na fila de pagamentos em situações de recuperação judicial ou extrajudicial. Para as debêntures, Casarotto defende que as emissões prevejam a criação de uma conta-reserva destinada a cobrir custos com processos de recuperação, prática já comum em FIDCs, CRIs e CRAs. Hoje, esses gastos ficam a cargo do emissor e muitas vezes não são honrados quando há restruturação, o que obriga credores a convocar assembleias para contratar assessoria jurídica e atrasar a defesa dos interesses dos investidores.
Em resumo, a mudança de postura da Templeton no Brasil combina menor concentração por emissor, maior seletividade por rating, investigação aprofundada dos controladores e propostas para reforçar a infraestrutura de informação do mercado. São passos que buscam reduzir fricções e acelerar decisões de recuperação, ao mesmo tempo em que preservam a confiança dos investidores que observam o comportamento de uma grande gestora global no cenário local.
