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Como a Austrália pode tributar Meta, Google e TikTok por conteúdo jornalístico

O governo australiano apresentou uma proposta que visa transformar a relação entre grandes plataformas digitais e os meios de comunicação locais. A iniciativa, batizada em inglês como News Bargaining Incentive e traduzida como Incentivo de Barganha por Notícias, prevê a cobrança de aproximadamente 2% a 2,25% das receitas locais das plataformas caso elas não firmem acordos comerciais com veículos de imprensa.

Segundo o Executivo, o objetivo é direcionar recursos para empresas jornalísticas e assegurar que o trabalho editorial seja remunerado quando alimenta feeds e serviços que geram receita para as big techs.

Em discurso público, a pasta responsável defendeu que o mecanismo é uma questão de justiça: plataformas digitais se beneficiam de conteúdo jornalístico e, por isso, deveriam contribuir para sua sustentabilidade. A proposta também prevê critérios de distribuição do montante arrecadado, com prioridade para empresas que empregam mais jornalistas e para aquelas que não têm contratos vigentes com as plataformas. O texto abrange regras de aplicação e critérios de elegibilidade que deverão ser detalhados no processo legislativo.

O que prevê o novo modelo

A proposta cria um instrumento que funciona como incentivo para que plataformas negociem diretamente com veículos; na ausência de acordo, o Estado aplicaria uma taxa sobre a receita obtida no país. O chamariz legislativo — o Incentivo de Barganha por Notícias — é apresentado pelo governo como uma alternativa ao modelo anterior de negociação obrigatória. O montante arrecadado seria redistribuído para o setor de mídia, buscando priorizar a preservação do emprego jornalístico e a pluralidade informativa nas regiões menos atendidas pelos acordos comerciais.

Quem seria afetado

Seriam alvo da regra empresas que ofereçam serviços significativos de busca ou redes sociais e que superem um limiar de receita local. A proposta menciona explicitamente nomes como Meta, Google e TikTok, mas exclui provedores de ferramentas de inteligência artificial generativa, que têm tratamento regulatório próprio. Em documento público, o projeto também indica que a entrada em vigor foi projetada para o ano fiscal que começa em 1º de julho de 2026, sujeita à aprovação parlamentar e aos parâmetros finais sobre quais empresas e serviços estarão cobertos.

Reações das plataformas e argumentos contrários

As gigantes tecnológicas reagiram de forma crítica. A Meta afirmou que financiar a imprensa por meio dessa medida criaria uma indústria dependente de subsídios públicos e classificou a cobrança como, essencialmente, um imposto sobre serviços digitais. O Google também rejeitou a necessidade de uma taxa adicional, alegando que já mantém acordos comerciais com veículos e questionando critérios de inclusão e exclusão de plataformas concorrentes. A dona do TikTok, a Bytedance, optou por não divulgar posicionamento oficial em alguns comunicados.

Argumentos do governo

Do lado governamental, a defesa é baseada no princípio de que as plataformas obtêm vantagem comercial com conteúdo jornalístico produzido por terceiros. A ministra das Comunicações ressaltou que, se as empresas preferirem não negociar, a cobrança servirá de mecanismo para garantir repasses ao setor. O primeiro-ministro destacou que as decisões seguirão o interesse nacional, mesmo diante de possíveis pressões internacionais, afirmando que a soberania nas escolhas regulatórias precede eventuais retaliações externas.

Contexto histórico e o debate sobre transparência

O texto surge após experiências anteriores: em 2026 a Austrália aprovou o News Media Bargaining Code, que obrigava plataformas a negociar pagamentos com veículos e previa arbitragem em impasses. Na ocasião houve fortes atritos — incluindo ameaças do Google de retirar serviços e bloqueios temporários de notícias pela Meta —, até que acordos privados foram firmados. Esse modelo expirou em 2026, abrindo espaço para a proposta atual, cuja formulação já recebe críticas sobre falta de transparência. Especialistas apontam que um modelo fiscal direto, claramente atribuído a pagadores e beneficiários, poderia ser mais previsível do que incentivos para acordos privados opacos.

Ao mesmo tempo, o debate no país envolve escolhas de política pública amplas: combinar medidas que protejam o jornalismo com instrumentos que evitem dependência excessiva de subsídios, além de definir como tratar novas tecnologias e atores digitais no ecossistema da informação. A proposta australiana será acompanhada de perto por mercados que enfrentam desafios semelhantes na remuneração do conteúdo jornalístico em plataformas digitais.

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