O universo dos fundos multimercado sofreu um abalo imediato após um choque externo que alterou preços e correlações globais. Em uma pesquisa exclusiva da Outliers Advisory com dados até o dia 17, uma amostra de 243 fundos — representativa dos produtos mais relevantes do mercado — mostrou que cerca de 80% das carteiras apresentaram retorno negativo no mês de março. Na média, o recuo foi de 1,7%, com 44 fundos perdendo mais de 3% e alguns reportando quedas superiores a 10%.
Esses números revelam uma deterioração concentrada, mas com efeitos amplos.
O fundador da Outliers Advisory, Samuel Ponsoni, resumiu a dinâmica observada: quando a percepção sobre o Brasil começou a melhorar e o fluxo externo aumentou, o evento geopolítico mudou todas as premissas. O choque elevou o preço do petróleo, reconfigurou expectativas de inflação e abriu curvas de juros em diversos mercados. Como consequência, estratégias que haviam protegido carteiras deixaram de cumprir esse papel — os chamados hedges perderam efetividade — e muitos gestores se viram forçados a ajustar posições rapidamente.
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Impacto nos preços, câmbio e ativos de proteção
Além do aumento do petróleo, observou-se uma valorização do dólar e uma queda no ouro, comportamento que chamou atenção por ser contraintuitivo em choques geopolíticos. Muitas casas venderam ativos que tinham subido para gerar caixa e cobrir perdas em outras áreas, ou simplesmente realocaram para ativos que haviam caído mais intensamente. No Brasil, a situação de liquidez levou o Tesouro a realizar sucessivos leilões de recompra de títulos pré-fixados e atrelados à inflação com o objetivo de prover liquidez ao mercado, uma ação apontada por gestores como precisa diante de um ambiente sem referências claras de preço.
Reação dos gestores e ajuste de exposição
Segundo relatos colhidos por analistas, inclusive encontros com gestores no Rio de Janeiro, parte dos fundos de perfil macro e hedge optou por reduzir a exposição bruta até que houvesse maior clareza sobre o trajeto dos riscos. Eduardo Rosman, analista de financials do BTG Pactual, destacou que muitos gestores preferiram aguardar visibilidade antes de retomar aumentos de risco, citando também preocupações locais como a possibilidade de greve dos caminhoneiros e a correção das ações de tecnologia como fatores que pesaram nas decisões.
Disfunção de mercado e medidas pontuais
Um gestor entrevistado descreveu o mercado como temporariamente disfuncional, operando sem referências de preço, o que elevou o papel das autoridades e do Tesouro na restauração de mecanismos de negociação. A quebra de correlação entre ativos globais — com bolsas e juros subindo ao mesmo tempo — mostrou que antigas estratégias de diversificação nem sempre protegem. Esse cenário também foi citado como uma das razões para a retração de parte do capital no setor nos meses anteriores, quando alternativas conservadoras e produtos isentos de imposto atraíram recursos.
Performance acumulada, dispersão e implicações para investidores
O impacto de março reduziu o retorno médio no ano dos multimercados para cerca de 1,3%, cifra que representa menos da metade do CDI no mesmo período, segundo o levantamento da Outliers Advisory. Apenas 24% dos fundos conseguiram superar o CDI no acumulado do ano. No horizonte de 12 meses, contudo, a média de retorno dos multimercados aparece em 15%, ligeiramente acima do CDI de 14,75%, com metade dos fundos superando esse benchmark — um retrato de alta dispersão entre gestores e estratégias.
Para investidores e alocadores, a lição é clara: a classe pode recuperar atratividade, como indicou o início de 2026, mas a seleção de gestores e a leitura do horizonte são cruciais. A capacidade de explorar valor relativo entre juros, moedas e ativos de risco permanece um diferencial, mas exige discernimento, foco no longo prazo e compreensão de que episódios pontuais podem expor fragilidades em proteções antes consideradas robustas.
