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Câmara adia análise do PLP dos bancos e busca ajustes antes da votação

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou na quarta-feira, 18 o adiamento da votação do PLP dos bancos, proposta que disciplina o uso de recursos públicos no socorro a instituições financeiras em dificuldade. A decisão seguiu solicitação do relator, o deputado Marcelo Queiroz (PSDB-RJ), e foi tomada após conversas com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Segundo Motta, existe uma nuvem de fumaça em torno do projeto, que precisa ser melhor compreendida antes de seguir ao plenário.

Por que o adiamento foi pedido

O relator argumentou que o texto precisa de mais maturação para evitar equívocos sobre seu objetivo principal: restringir, não ampliar, o uso do tesouro em salvamentos bancários. Em plenário, Marcelo Queiroz explicou que alterações solicitadas pelo governo atingiram artigos centrais e, por isso, pediu mais tempo para negociação. A preocupação no Congresso é conciliar a necessidade de instrumentos legais mais claros com a percepção pública, evitando que a medida seja interpretada como um salvo-conduto para socorro a gestores de bancos em crise.

O que o projeto propõe

O texto original do PLP cria um novo arcabouço de resolução bancária e prevê mecanismos como a atuação do Conselho Monetário Nacional (CMN) para autorizar operações de empréstimo e capitalização temporária pela União, desde que outras alternativas tenham sido esgotadas. No centro do projeto está o regime de estabilização, que privilegia a utilização de recursos privados — inclusive a redução do capital social até R$ 1 e a conversão de créditos — antes de acionar recursos públicos. O texto também traz a criação de um fundo de resolução, modelo paralelo ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), destinado a reforçar mecanismos de suporte sem onerar diretamente o contribuinte.

Mecanismos de controle

Outra mudança prevista é a comunicação das operações ao Senado: conforme o relatório, o CMN deverá notificar o Senado em até cinco dias úteis após aprovar uma operação, apresentando nota técnica que justifique risco sistêmico. O Senado teria então 30 dias para analisar e poderá suspender desembolsos ou cancelar a operação. Além disso, o PLP exige relatórios trimestrais ao Legislativo sobre a evolução das medidas de socorro, aumentando a transparência e o acompanhamento parlamentar.

Reações políticas e contexto

A proposta enfrenta resistência do bloco governista, que teme que a aprovação em clima de escândalo — após a quebra do Banco Master e a prisão de seu ex-proprietário, Daniel Vorcaro — seja interpretada como um favorecimento a interesses privados. Líderes do PT no Congresso, como o deputado José Guimarães e o líder Pedro Uczai, manifestaram oposição a qualquer sinal de que o dinheiro público seria usado para salvar bancos problemáticos. Do outro lado, o relator sustenta que o projeto visa exatamente reduzir a necessidade de aportes do tesouro, criando instrumentos que priorizem recursos privados e limitem o risco ao erário.

Negociação e agenda

Com o adiamento, o relator retomou negociações com o Ministério da Fazenda para ajustar pontos sensíveis e buscar concordância entre base e oposição. Fontes no Congresso indicam que a pauta poderá ser novamente colocada em votação assim que houver um texto mais claro e aliados políticos mais confortáveis com a comunicação pública da medida. Enquanto isso, persiste o debate sobre a origem da proposta — um texto que remonta a 2019 e teve autores técnicos ligados a governos anteriores — e o impacto eleitoral de aprovar mudanças em ano de campanha.

Impactos potenciais e próximos passos

O adiamento oferece tempo para detalhar salvaguardas que protejam o contribuinte e reduzam o risco moral, ao mesmo tempo em que procura ampliar ferramentas para o Banco Central lidar com crises. Entre os pontos que deverão ser afinados estão as condições para mobilizar recursos públicos, os gatilhos para acionar o fundo de resolução e as garantias de que acionistas não sejam beneficiados indevidamente. A expectativa é de que, com um texto mais preciso, o Congresso consiga votar uma proposta que combine robustez técnica e amparo político.

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