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A volta do b16 e o impacto esperado na cadeia do biodiesel e no setor de esmagamento

O tema do aumento da mistura obrigatória de biodiesel voltou a gerar movimento no mercado depois de idas e vindas no cronograma original. A Lei do Combustível do Futuro previa a elevação de B15 para B16 em março de 2026, etapa que não se concretizou e chegou a ser adiada para 2027.

No entanto, no final de abril o presidente Lula sinalizou publicamente a intenção de retomar o aumento, reacendendo expectativas do setor. A proposta, se implementada a partir de junho, teria efeitos diretos sobre volumes, preços e dinâmica de oferta de óleo de soja, com reflexos ao longo de toda a cadeia do transporte e do agronegócio.

Para contextualizar, B16 refere-se à mistura de diesel contendo 16% de biodiesel, enquanto B15 tem 15% — uma diferença aparentemente pequena, mas de grande impacto em escala nacional. O Ministério de Minas e Energia planeja testes técnicos para atestar a viabilidade, e uma decisão formal deverá passar pelo CNPE na reunião agendada para 7 de maio. Ao mesmo tempo, o aumento paralelo do teor de etanol anidro para E32 também foi anunciado como parte do esforço de descarbonização e segurança energética, o que amplia a agenda regulatória para combustíveis renováveis.

Projeções de mercado e números chave

O banco Bradesco BBI estimou que, caso o B16 entre em vigor em junho, as vendas de biodiesel poderiam alcançar cerca de 10,8 bilhões de litros em 2026. Esse volume representa um incremento de aproximadamente 420 milhões de litros sobre o patamar do B15 (+4%) ou perto de 700 milhões de litros em termos anualizados (+7%). Pressupondo um crescimento da demanda por diesel no Brasil em torno de 2% ao ano para 2026, o banco projeta vendas totais de diesel B na ordem de 69,6 bilhões de litros. Esses números evidenciam como um aumento aparentemente modesto na mistura pode traduzir-se em mudanças relevantes nas métricas de oferta e preço.

Efeito sobre a indústria de esmagamento

O impacto do B16 não se limita ao mercado de combustíveis: atinge com força o segmento de esmagamento de soja. Mesmo antes da reabertura da pauta, as margens de esmagamento já se mostravam sólidas no primeiro trimestre de 2026 e mantiveram-se no segundo, em parte obedecendo a fatores externos como a maior compra de soja pelos Estados Unidos, que ajudou a conter o prêmio do Brasil. Com a adoção do B16, a demanda doméstica por óleo de soja tenderia a se intensificar, sustentando preços do biodiesel e elevando as margens de processamento e refino.

Dinâmica de oferta e necessidade de maior mistura

Nos últimos anos houve expansão da capacidade de processamento, o que aumentou a oferta interna de óleo de soja e deixou o mercado mais dependente de taxas de mistura superiores para restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda. O B16 funcionaria, portanto, como um mecanismo de absorção dessa oferta extra, ajudando a reduzir a pressão sobre preços locais e a melhorar a rentabilidade dos esmagadores. Para o setor, isso representa uma alternativa prática para ajustar estoques e incentivar investimentos em capacidade produtiva, em vez de depender exclusivamente do ajuste via preços internacionais.

Quem deve se beneficiar e o roteiro regulatório

Entre as empresas do setor, o Bradesco BBI destaca a 3tentos (TTEN3) como principal escolha no agronegócio, especialmente pelo peso crescente do segmento de esmagamento nas receitas — estimado em cerca de 49% para 2026. A companhia também tem ampliado sua capacidade: em 2026 processou cerca de 59 milhões de toneladas, um aumento de 23% nos últimos quatro anos. Produtores e associações do setor reagiram positivamente às declarações presidenciais, dizendo-se prontos para atender a demanda adicional caso o aumento seja confirmado.

Calendário e percepções do setor

Operacionalmente, o Ministério de Minas e Energia programou testes técnicos que, segundo documento da pasta, poderiam começar em maio e durar quase um ano, mas com aporte adicional de recursos esse prazo poderia ser reduzido para cerca de quatro meses, acelerando a conclusão para agosto ou setembro. A proposta será debatida no CNPE em 7 de maio, que deverá definir se o governo seguirá adiante com o cronograma mais ambicioso ou optará por cautela. Enquanto isso, líderes do setor de biodiesel e óleo vegetal veem o movimento como positivo para a segurança energética e para agregar valor à cadeia agroindustrial nacional.

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