Hoje as mulheres já representam 26,7% dos investidores em produtos de renda variável na B3. Em fevereiro de 2026 havia cerca de 1,48 milhão de mulheres com posição na bolsa, em um universo de 5,56 milhões de investidores, um crescimento de 8% frente ao ano anterior, superior ao avanço médio de 5,5%.
Esse cenário contemporâneo contrasta com um passado em que a presença feminina nos pregões era praticamente inexistente — salvo uma exceção histórica: Eufrásia Teixeira Leite.
Natural de Vassouras (RJ), nascida em 1850, Eufrásia foi herdeira de uma família com raízes na produção de café. Aos 23 anos ficou órfã e, acompanhada da irmã Francisca, partiu para a França levando uma fortuna inicial estimada em 400 mil réis — valor histórico que é às vezes comparado, com imprecisões, a cerca de R$ 50 milhões em termos modernos. Sua escolha por viver e operar no exterior foi também uma resposta às restrições sociais e legais que limitavam as mulheres no Brasil da época.
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Investidora autodidata nos mercados internacionais
Eufrásia construiu uma carreira de 55 anos como investidora, atuando em 17 países e negociando em 9 moedas. Em Paris tornou-se figura respeitada nos salões financeiros e chegou a figurar entre as 150 pessoas mais ricas da França. Seu patrimônio declarado no testamento — um inventário de 8.000 páginas — foi de 37 milhões de réis, montante que, segundo relatos da época, equivalia a quase duas toneladas de ouro. Para contextualizar, em março de 2026 o quilo do ouro tem cotação entre R$ 863.000 e R$ 906.000, o que demonstra a magnitude simbólica de sua fortuna, ainda que conversões diretas sejam inadequadas.
Métodos e diversificação
Sem acesso direto ao piso do pregão — mulheres eram proibidas de frequentar o espaço do pregão viva-voz — Eufrásia operava por intermédio de corretores que executavam suas ordens. Utilizava técnicas semelhantes ao que hoje se conhece como tape reading, analisando dados de volume e preço para orientar decisões. Sua carteira incluía setores tradicionais como imobiliário e ferrovias, além de indústrias emergentes do fim do século XIX e início do século XX, como a eletrificação e a produção de fibras sintéticas. Também manteve posições na Bolsa de Nova York e investiu em empresas brasileiras, entre elas o Banco do Brasil e cervejarias que mais tarde fariam parte da atual AB Inbev.
Vida pessoal, filantropia e legado
Solteira e sem descendência, Eufrásia optou por não transferir grandes fortunas para parentes. Deu alguns títulos públicos a primos e benefícios a funcionários, mas destinou a maior parte de seus bens a instituições de educação, saúde e caridade em Vassouras. Entre seus investimentos também estavam um palacete em Paris — na atual esquina onde funciona uma loja da Louis Vuitton nos Champs-Élysées — e um terreno em Copacabana parcelado em 27 lotes. Ela ainda financiou próteses para veteranos após a Primeira Guerra Mundial e apoiou artistas e cientistas, sendo citada entre patronos de museus como o Louvre.
Controvérsias e reconhecimento tardio
Ao longo de décadas a família contestou o testamento, chegando a tentar declarar sua insânia para reaver parte da herança e propagando boatos — como a falsa história de que teria deixado fortuna para um burrinho receber pão de ló. O animal aparecia no inventário, mas como bem a ser vendido. O processo de inventário demorou 22 anos para ser concluído em termos burocráticos, e o reconhecimento público veio apenas muito tempo depois: em 2019 a B3 e a ONU Mulheres identificaram Eufrásia como a primeira investidora do Brasil.
Eufrásia faleceu aos 80 anos, em 13 de setembro de 1930. Curiosamente, essa data ocorre duas semanas após o nascimento de Warren Buffett, em 30 de agosto de 1930. Seu legado serve como referência não só pelo patrimônio acumulado, mas pela forma como navegou limitações sociais para construir uma carreira independente nos mercados financeiros. Pesquisas e livros recentes, como Quero ser Eufrásia da analista Mariana Ribeiro, resgataram sua trajetória e colocaram sua história no centro do debate sobre direitos e autonomia financeira das mulheres.
O exemplo de Eufrásia acende reflexão sobre o quanto o acesso ao mercado mudou desde então — hoje milhões de mulheres investem na B3 — e lembra que a participação feminina no universo financeiro tem raízes que merecem ser recontadas e celebradas.
