Nos últimos dias o senador Flávio Bolsonaro protagonizou duas reviravoltas que impactaram diretamente a dinâmica da corrida presidencial. Primeiro, aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que elimina a escala 6×1 e, em seguida, desistiu de participar do debate marcado pela Band contra o presidente Lula da Silva. Ambos os episódios surpreenderam analistas e geraram intenso debate dentro da coalizão de direita.
Voto favorável à PEC que encerra a escala 6×1
Na quarta-feira (14), o Senado Federal concluiu a votação da PEC do fim da jornada 6×1. Flávio Bolsonaro registrou presença apenas no instante da votação, utilizando o sistema remoto, e não compareceu a nenhuma das cinco sessões de debate semipresenciais que antecederam a decisão. Até então, o candidato do PL (Partido Liberal) manifestara firme oposição ao texto, defendendo um modelo de jornada flexível negociada diretamente entre patrão e trabalhador.
Ausência nas discussões e mudança de postura
Durante a campanha, Flávio havia argumentado que a eliminação da escala 6×1 poderia gerar desemprego e que a solução seria a liberdade de escolha da carga horária pelo próprio trabalhador. Em agosto, ao se reunir com empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), reforçou essa linha. Contudo, ao final da votação alegou que a maioria dos trabalhadores ouvidos em campo apoiava a redução da jornada, justificando sua mudança de voto.
Repercussão no congresso e entre apoiadores
A postura acabou sendo duramente criticada por representantes da oposição, como a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) que acusou Flávio de acreditar que sua eventual vitória lhe daria poder para revogar a decisão. Dentro do próprio PL, surgiram dúvidas sobre a estratégia de empurrar a votação para depois das eleições, o que indicava um possível jogo de bastidores para adiar a medida caso a proposta fosse considerada eleitoreira.
Retirada do debate da Band
Na terça-feira (13), Flávio Bolsonaro anunciou que não compareceria ao primeiro debate do segundo turno, programado para domingo (18) na BandTV, que deveria enfrentar o presidente Lula. A declaração foi feita durante um evento do comitê político do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas que também anunciava apoio do MDB paulista à candidatura de Flávio.
Reação da emissora e estratégia de confronto
A Rede Bandeirantes manteve o debate em sua grade e informou que, caso um dos candidatos falte, o palco ficará vazio. A decisão de Flávio chegou após ele ter afirmado, apenas uma semana antes, que considerava os debates “importantes” e que desejava comparar seus programas com os de Lula. O último debate previsto, organizado pela TV Globo para o dia 23 de outubro, ainda está em avaliação pela equipe de campanha.
Histórico de ausências e pressões externas
No primeiro turno, nenhum dos candidatos participou de debates. O confronto da Globo foi cancelado depois que Flávio comunicou a ausência horas antes do início. A reticência também lembra um episódio de dez anos atrás, quando o então candidato a prefeito do Rio de Janeiro sofreu mal-estar na Band e foi socorrido por uma médica que também concorria ao cargo.
Impactos políticos e nova dinâmica de campanha
Essas duas decisões – o voto inesperado na PEC e a fuga do debate – foram interpretadas como respostas a uma crescente pressão dos apoiadores de Lula, que ocuparam ruas e redes sociais nos últimos dias. Dentro da equipe de Flávio, surgiram cobranças para abandonar a postura “passiva” que predominava após a vitória no primeiro turno. O coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN) já apresentava uma proposta alternativa à PEC, focando em flexibilidade de jornadas e remuneração proporcional.
Ao mesmo tempo, o candidato buscou reforçar alianças regionais. Tarcísio de Freitas, Sergio Moro, Jorginho Mello e Luciano Zucco foram vistos em eventos em Porto Alegre, Espírito Santo e Bahia, sinalizando um esforço para ampliar a base de apoio fora do Rio de Janeiro. A campanha também conta com figuras como Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira, que lideram a chamada “Tropa de Flávio”, um núcleo de mobilização digital que tenta contrabalançar a explosão de conteúdo favorável a Lula.
A combinação de um voto inesperado na PEC 6×1 e a estratégia de evitar confronto direto na TV pode definir a percepção dos eleitores nas próximas semanas.



