Após o primeiro turno das eleições, o JPMorgan revisou a posição sobre duas das maiores companhias de transportes listadas no Brasil. A operadora ferroviária Rumo recebeu um upgrade para overweight (equivalente a compra), enquanto a locadora de veículos Localiza foi rebaixada para neutral. A mudança reflete a diferença de desempenho dos papéis desde o início da corrida eleitoral e a avaliação de riscos setoriais.
Os papéis de transporte registraram, em média, alta de 34% desde o primeiro turno, superando o Ibovespa em 26 pontos percentuais. Esse movimento acompanhou a queda de aproximadamente 1,7 ponto percentual nas taxas de juros de longo prazo, o que favoreceu a reavaliação de múltiplos de mercado nos modelos internos da casa.
Rumo: por que a ferrovia agora vale a compra
O analista Guilherme Mendes destacou que a Rumo acumulou apenas 12% de valorização desde o início do rali, bem abaixo da média de 37% dos demais papéis de transporte que o banco cobre. Apesar desse desempenho tímido, a ação ainda negocia cerca de 6,3x EV/EBITDA projetado para 2027 – múltiplo considerado atrativo quando comparado ao histórico.
O ponto central da tese é a transição da companhia para uma fase de geração de caixa mais estável. Após um longo período de investimentos intensivos e de ajustes tarifários, a expectativa é que o free cash flow se torne mais previsível, alimentado por um plano de investimentos menos agressivo e por preços de frete ferroviário mais favoráveis. O banco reconhece riscos ligados ao ciclo agrícola, ao fenômeno El Niño e a discussões sobre a estrutura societária, mas acredita que o desconto aplicado ao preço da ação compensa essas incertezas.
Com a revisão, o preço-alvo da Rumo passou de R$ 19,50 para R$ 23,50, indicando potencial de valorização de cerca de 25% em relação ao nível usado nos cálculos.
Localiza: por que o momento é de realização de lucros
Já a Localiza experimentou um rali expressivo, subindo 31% durante a chamada “rally Flávio” e acumulando 70% desde seu ponto mais baixo em meados de agosto. Apesar desse ganho, o analista apontou que a ação está negociando próximo a 13x o lucro projetado para 2027 – patamar superior ao intervalo de 7 a 14 vezes observado ao longo do atual ciclo de depreciação de frotas.
Dois fatores principais pressionam a avaliação: o aumento acelerado da depreciação dos veículos usados e a competição de montadoras chinesas, que mantêm preços agressivos e lançamentos constantes. Cada ponto percentual adicional na taxa de depreciação pode reduzir os lucros da empresa em cerca de 5%. Assim, embora a execution operacional continue sendo elogiada – com ROIC crescente – o risco-retorno ficou menos atraente, sobretudo num cenário de juros menores que reduz a margem de segurança.
Mesmo com a recomendação neutra, o banco elevou o preço-alvo de R$ 65 para R$ 70, refletindo a confiança de que a empresa está bem posicionada para captar fluxo de capitais estrangeiros e se beneficiar de juros mais baixos.
Além de Rumo e Localiza, o relatório destacou que os papéis MotivaEcoRodoviasVamos e JSL estão entre os que mais subiram, compondo a lista de overweight do banco. A concessionária rodoviária Motiva foi apontada como a favorita para 2027, graças ao seu modelo de negócios defensivo e a iniciativas de geração de valor.
Entretanto, o JPMorgan optou por não promover novas mudanças de recomendação neste momento, preferindo aguardar a redução da volatilidade pós-eleitoral para estabilizar os múltiplos de avaliação. A instituição ressalta que muitas ações podem continuar a subir por fatores técnicos, ainda que a correlação com fundamentos seja limitada no curto prazo.



