Muitos investidores brasileiros consideram o CDI como um porto seguro para seu patrimônio. No entanto, um estudo recente realizado por Artur Wichmann CIO da XP Inc. em parceria com Ruy Ribeiro e Eduardo Marinho ambos do Insper revela que essa percepção pode estar equivocada.
O estudo, que analisou dados dos últimos 16 anos, mostra que investir exclusivamente em ativos atrelados ao CDI pode não ser suficiente para proteger o patrimônio da inflação. Essa descoberta desafia a ideia tradicional de que o CDI é um ativo livre de risco.
O CDI e a perda de poder de compra
Segundo o estudo, quem investiu em ativos ligados ao CDI perdeu dinheiro em termos reais em diferentes períodos. “Como a perda é real, não nominal, já que o CDI sempre sobe, muitos investidores nem a percebem e fica por isso mesmo,” afirmou Wichmann ao Brazil Journal.
A tese central do estudo é que o CDI, por ser incapaz de garantir poder de compra ao longo do tempo, não deveria ser considerado o principal benchmark para o investidor avaliar se seu portfólio está rendendo de forma adequada. Os autores argumentam que não existe um ativo livre de risco “único e universalmente aplicável” porque ele deve ser função do passivo do investidor.
Alternativas ao CDI
Para um brasileiro típico, que está poupando para a aposentadoria ou planejando a educação dos filhos, a referência deveria ser uma carteira de títulos indexados à inflação, “com maturidades alinhadas aos objetivos previsíveis”. Essa carteira poderia ser complementada por investimentos de curto prazo para liquidez, como fundos DI, papéis públicos ou privados.
Wichmann lembra que muitos investidores evitam os títulos atrelados à inflação, como as NTN-Bs porque eles oscilam no curto prazo. No entanto, quem mantém os papéis até o vencimento recebe o retorno definido no momento do investimento, que hoje é de 8% ao ano mais a variação do IPCA.
Comparação de rendimentos
O estudo compara o rendimento real do CDI ao de três índices que acompanham papéis atrelados à inflação: o IMAB5 (títulos que vencem em até cinco anos), o IMAB5+ (ativos com prazos superiores a cinco anos) e o IDKA5 (uma carteira de NTN-Bs com duration aproximadamente constante de cinco anos).
Entre 2010 e 2026, o CDI teve retorno real médio de 3,6%. O IMAB5 entregou 5%, o IMAB5+, 5,5%, e o IDKA5, 5,7%. No entanto, a volatilidade dos papéis atrelados à inflação foi muito maior, especialmente os de prazos mais longos. Em alguns anos, o retorno foi pior que o do CDI; em outros, chegou a ser negativo.
Em 2024, por exemplo, uma carteira que tivesse acompanhado o IDKA5 teria perdido 15% em termos reais. No caso do IMAB5+, o prejuízo teria sido de 12%, enquanto o CDI rendeu 6% e o IMAB5, 1,8%. Isso é esperado devido ao período curto de um ano, em que os ajustes de marcação a mercado mexem com os preços dos papéis atrelados à inflação.
Horizonte de investimento
À medida que o horizonte aumenta, a volatilidade diminui. Quando considerado o rendimento acumulado em cinco anos, por exemplo, entre 2021 e 2026, o IMAB5 supera o CDI em todos os períodos, exceto em 2020 e 2021. O CDI bate o IBMAB5+ e o IDKA5 em mais dois períodos, 2011 e 2013. Na média, porém, os papéis indexados rendem mais que o CDI.
Os autores consideram o resultado surpreendente porque, em teoria, os títulos indexados deveriam oferecer um retorno menor por embutir uma proteção contra a inflação. “Muitos investidores se preocupam com a volatilidade dos títulos indexados de longo prazo decorrente das flutuações dos juros reais,” escrevem os autores. “Mostramos, no entanto, que essa volatilidade é em larga medida temporária: menores retornos no curto prazo tendem a ser compensados por maiores retornos no futuro.”
Conclusão
O estudo termina com uma ressalva. Há sim investidores que deveriam perseguir o CDI: aqueles cujo patrimônio “excede amplamente suas necessidades futuras de consumo”. Nesse caso, o objetivo não é mais manter o poder de compra, mas maximizar o crescimento da riqueza.
Para esses investidores, usar o CDI como ativo livre de risco — em combinação com um portfólio arriscado — faz “pleno sentido”. “Essa parcela funciona como equivalente de caixa, que pode ser facilmente ampliada ou reduzida para aproveitar oportunidades de mercado associadas a variações no prêmio de risco,” concluem os autores.



