O banco central, em relatório publicado na manhã de segunda-feira (25), concluiu que a liquidação extrajudicial das instituições ligadas ao Banco Master não provocou um colapso no sistema financeiro nacional. Segundo o documento, os mecanismos de proteção, em especial o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), foram acionados dentro do modelo institucional vigente e demonstraram capacidade de absorção de choques. A autoridade ressalta que depositantes e investidores tiveram acesso preservado a instrumentos garantidos e que parte dos recursos ressarcidos migrou para bancos de maior porte e relevância sistêmica.
A avaliação técnica do Banco Central
Na exposição aos senadores e no relatório, o presidente do BC destacou que sinais específicos chamaram a atenção da equipe supervisora. A criação de novas carteiras para captação, em vez da venda de ativos, foi apontada como um comportamento incompatível com um banco em situação de insuficiência de liquidez. O BC avalia que tal atitude indicou distorções na gestão de riscos. Ainda assim, a autoridade considera o evento como impacto limitado: estimativas citadas mencionam que a exposição do caso Master seria inferior a 0,5% do patrimônio total do sistema, após a liquidação.
Impactos práticos e respostas do mercado
Após a liquidação, o acionamento do FGC permitiu que correntistas e titulares de CDBs fossem ressarcidos, e esses recursos foram, majoritariamente, direcionados para instituições maiores, reforçando percepção de segurança entre depositantes. A manutenção do acesso das instituições financeiras ao mercado de captação também foi destacada como fator que preservou a confiança. Em razão desses fatores, o BC concluiu que não houve alteração relevante nas taxas praticadas para instrumentos cobertos pelo FGC, o que ajudou a evitar contágio mais amplo.
Repercussões numéricas
Representantes do mercado apontaram perdas significativas associadas ao escândalo. Executivos citaram números como R$ 50 bilhões referentes a potenciais passivos acionáveis pelo FGC, além de impactos pontuais em instituições e fundos: cerca de R$ 12 bilhões no Banco de Brasília (BRB) e aproximadamente R$ 4 bilhões em fundos de previdência. Esses valores alimentaram o debate sobre alcance e concentração dos riscos operacionais e de governança.
Críticas públicas e responsabilidades apontadas
Líderes do mercado, como o chairman do BTG Pactual, afirmaram sem hesitar que houve falhas dos órgãos reguladores que permitiram as fraudes. No mesmo sentido, o presidente do BNDES atribuiu responsabilidade à gestão anterior do Banco Central, apontando omissão e conivência antes da mudança de direção que levou à intervenção. Esses posicionamentos pedem não apenas explicações, mas medidas concretas de aperfeiçoamento das práticas de supervisão.
Casos e exemplos citados
O BTG Pactual, por exemplo, figurou entre os principais distribuidores de CDBs do Master e realizou operações com carteiras originadas pelo banco, comprando mais de R$ 1 bilhão do Credcesta. Uma negociação de aquisição de ativos secundários estimada em R$ 1,5 bilhão em maio de 2026 foi abortada após auditorias internas que identificaram que cerca de 80% do caixa do Master estaria lastreado por precatórios de qualidade duvidosa — descritos por executivos como precatórios podres. Esses achados motivaram revisões nas diligências de crédito e distribuição.
Lições e propostas para fortalecer a fiscalização
Diante do episódio, autoridades e líderes do setor defendem o reforço das estruturas de supervisão. Entre as propostas estão o empoderamento do Banco Central e da CVM, a reestruturação das carreiras de fiscalização, remuneração adequada e mecanismos que elevem a atratividade e capacidade técnica do quadro regulatório. Também se aponta a necessidade de maior vigilância sobre fundos e gestoras, visto que entidades como a Reag, já sujeitas a liquidação extrajudicial, podem indicar problemas sistêmicos mais amplos.
O que fica para o mercado
O episódio reforça duas mensagens centrais: primeiro, que mecanismos institucionais, quando ativados, conseguem mitigar contágios; segundo, que falhas de governança e de fiscalização podem gerar perdas relevantes para o conjunto do sistema. O desafio nas próximas etapas será combinar eficiência de resposta com reformas preventivas que reduzam a probabilidade de repetição de fraudes e aumentem a resiliência do sistema financeiro nacional.
